NA PIOR CRISE HUMANITÁRIA JÁ VIVIDA NO BRASIL, ORGANIZAÇÕES DEDICAM A MAIOR PARTE DE SEUS TRABALHOS PARA COMBATER A FOME DURANTE A PANDEMIA

Por: Patrícia Toni

Os primeiros meses de 2021 trouxeram ao Brasil a frustração da continuidade da pandemia da Covid-19. Após 1 ano e 2 meses, os resultados desse período são mais de 400 mil vidas perdidas pela doença, milhões de pessoas infectadas e uma profunda crise socioeconômica que atinge, principalmente, quem mora nas periferias do país. Com apenas 15% da população vacinada até agora, o cenário é de caos, as perspectivas de melhora estão distantes e isso faz com que grande parte das organizações, entidades e coletivos que lutam por direitos sociais e bem-estar de pessoas em situação de vulnerabilidade necessitem dedicar todos os seus esforços para combater a fome, a miséria e as desigualdades. O trabalho é urgente porque, a cada dia, os números preocupantes só aumentam.

Mais de 116 milhões de brasileiros e brasileiras não têm acesso pleno e permanente a alimentos. Dessas pessoas, 19 milhões estão em situação de insegurança alimentar grave, isto é, passando fome. Os dados são do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 que foi realizado em 2.180 domicílios, nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020.

A realidade do Brasil nunca esteve distante dessas estatísticas, mas é inegável a piora desse quadro nos últimos dois anos. “Não há dúvidas de que atravessamos no país, desde o período da escravidão, o nosso pior momento. Nunca se morreu tanto, em tão pouco tempo e de maneira tão concentrada. Tudo a partir do resultado das políticas de Estado. Assim como nos períodos de guerra, são milhões de mortos de um lado, milhões de famintos de outro”, aponta Douglas Belchior, professor de história e fundador da Uneafro Brasil.

Para Aline Barbosa, coordenadora do Núcleo Raquel Trindade, unidade da Uneafro em Embu das Artes, São Paulo, a pandemia só escancarou essa situação que é cotidiana nas quebradas. “Já era sabido que a população desprovida de direitos, e aqui falamos de uma maioria pretos, pobres e periféricos, sofreria muito mais. Vivemos a ausência de políticas públicas, como a de seguridade social. Os trabalhadores da periferia não tiveram alternativa a não ser encarar a insalubridade dentro dos ônibus superlotados e as aglomerações para irem para o trabalho e, assim, nem puderam manter o isolamento social. Aliás, como manter o isolamento social e garantir a vida com o país mais uma vez no mapa da fome?”, questiona.

Nesse momento, o compromisso das organizações comunitárias e movimentos sociais em apoiar a população que precisa de amparo ficou ainda maior. “Enquanto movimento popular que tem um projeto político para o país, como é o caso do movimento negro, tentamos olhar para o futuro apesar da desgraça. Isso faz os movimentos dedicarem seu tempo para acudir o povo nas periferias, na favela, nos bairros onde nós moramos, para além da denúncia do governo genocida que vivemos. Convivemos no ambiente do terror, abandonado pelo Estado do ponto de vista dos direitos sociais, super ocupado por esse mesmo Estado pelo ponto de vista da repressão. Então, a gente também se obriga a enfrentar a fome”, explica Douglas Belchior.

 

Organizações e iniciativas práticas de enfrentamento à fome

 

Com o agravamento diário da crise sanitária e socioeconômica no país, iniciativas nacionais para ajudar a conter o avanço da miséria e da fome precisaram ser criadas. Desde o início da quarentena, em março de 2020, a Uneafro Brasil iniciou uma campanha de financiamento coletivo para apoiar as famílias negras e periféricas, moradoras das comunidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a organização atua. Até a metade do ano passado, a iniciativa que também deu suporte a integrantes da organização, refugiados e quilombolas arrecadou quase 800 mil reais que foram revertidos em mais de 120 toneladas de alimentos em cestas básicas, cerca de 8 mil marmitas e 67 mil produtos de higiene e limpeza distribuídos. Mais de 15 mil pessoas de 41 territórios foram atendidas.

Núcleo Luiza Mahin, em São José dos Campos, realizando entrega de cestas básicas

A falta de acesso à terra para plantar, a ausência de condições para comer, de sustentar uma casa, de se proteger de doenças não é simplesmente a falta de sorte de uma grande parcela da população, segundo Douglas Belchior. Para ele, tudo é resultado de políticas de Estado. “O quanto poderia ser uma surpresa o que estamos vivendo? Desigualdade social, desigualdade no acesso à educação, desigualdade ao acesso do trabalho formal e renda sempre foram marcas da sociedade brasileira. Uma vez que a sociedade tem suas necessidades básicas atendidas, logo, não há fome. Como vivemos em um país que promove ações ao contrário desse atendimento, nós temos um país com fome”.

No entanto, os objetivos da ação continuam vivos e fazem a diferença em milhares de territórios periféricos e de comunidades tradicionais. A preocupação, além de levar o alimento, é levar alimento de qualidade, com diversidade nutricional. Por isso, a campanha mobiliza coletivos de agricultura orgânica e familiar para distribuir cestas verdes com legumes, verduras e frutas para quem precisa. “Temos recebido muitas mensagens de quilombos, de pessoas que estão nas comunidades, no campo, nas comunidades urbanas e que valorizam esse alimento. Cada grão de arroz no prato, cada bocado de feijão que está chegando, as saladas formadas pelos grupos de orgânicos que estão indo junto com as cestas, tudo aquilo é valorizado. E valorizar o alimento é algo muito bonito. A gente não consegue grandes mudanças se tem fome e é isso que a campanha “Tem Gente com Fome” busca alcançar”, completa Sheila de Carvalho, advogada de Direitos Humanos da Uneafro Brasil.

O propósito de iniciativas humanitárias como as organizadas pela Uneafro Brasil, Coalizão Negra Por Direitos e muitas outras instituições e entidades não é uma entrega aleatória de cestas básicas, sem uma construção política de conscientização sobre a gravidade do projeto político que está em curso no país. “Enquanto movimento negro, estamos há muitos anos no processo de genocídio, essa ação deliberada para eliminação da existência física de grupos nacionais, étnicos, raciais e religiosos. Estou aqui falando de conceitos jurídicos, mas o que acontece aqui enquanto projeto de nação, desde quando esse país foi fundado? Uma política de genocídio que vai sendo agravada, que vai sendo sofisticada e que vai tendo aliados cada vez mais fortes. Não é à toa que denunciamos Jair Bolsonaro, democraticamente eleito presidente da República, por um discurso genocida, que acentua as políticas de morte contra os nossos. Não é à toa que vivemos índices recordes de fome e de desigualdades, não é à toa que o Brasil é, hoje, o país que teve a pior experiência em relação à contenção da pandemia, que tem a maior população carcerária do mundo e a polícia que mais mata”, dispara Sheila. Mas, em tempos de perda de direitos e ódio, a esperança, a resistência e a solidariedade são a melhor resposta para esses ataques. “Eles não vão nos matar, não vão matar o nosso futuro, não vão matar as nossas lutas”, finaliza.

PANDEMIA COMPROVA COMO TRABALHADORAS DOMÉSTICAS AINDA SÃO OBRIGADAS A SEGUIR MODELO DE SERVIDÃO DE SÉCULOS PASSADOS

Por: Luiz Soares

A semana que passou marcou duas datas extremamente importantes para a luta por direitos. Na terça (27), foi celebrado o Dia da Empregada Doméstica, criado para homenagear Zita de Lucca, trabalhadora doméstica que morreu nessa data, em 1272, na Itália, declarada padroeira da categoria. E, hoje (1º de maio), o Dia do Trabalhador, celebrado desde 1889 para homenagear integrantes de grupos sindicais dos Estados Unidos que realizaram uma greve nesse mesmo dia, em 1886, lutando, entre outras coisas, pela jornada de trabalho de oito horas, seguida, hoje, em quase todas as partes do mundo.

Sendo assim, essas datas são de reivindicação – apesar de o feriado dar caráter festivo ao 1º de maio – e chamam a atenção para a necessidade de valorização e respeito de todas as classes profissionais, como aqui representadas pelas trabalhadoras domésticas. Historicamente discriminadas e desrespeitadas, essas profissionais se viram ainda mais divididas entre o medo do desemprego e, consequentemente, da fome e da contaminação pelo novo coronavírus. Como canta Emicida na música Ordem Natural das Coisas, são os profissionais e as profissionais, como a dona Maria, que pegam o ônibus antes mesmo do sol nascer.

Com mais de 400 mil mortos pela Covid-19 no Brasil – número também alcançado pelos Estados Unidos e distante das 215 mil mortes no México, o terceiro colocado nesse ingrato ranking – a semana foi marcada pela instalação da CPI da Covid, iniciada na terça (27).

Não haveria data tão emblemática para investigar os atos ou a falta deles por parte do governo federal desde março do ano passado, uma vez que uma das primeiras vítimas fatais da doença foi Cleonice Gonçalves, trabalhadora doméstica do Rio de Janeiro, contaminada por sua empregadora que havia viajado para a Itália. Mas será que os integrantes da CPI vão ouvi-las e pensar nelas?

Além das empregadas domésticas, podemos citar diversas classes trabalhadoras que, durante a pandemia, têm se arriscado para garantir o emprego e fugir da fome. Podemos citar aqui porteiros, motoristas, entregadores e muitos outros. E é por conta desses profissionais que saudamos todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores brasileiros.

 A realidade das trabalhadoras domésticas

O emprego doméstico é regido pela Lei Complementar 150/2015 – além da Reforma Trabalhista de 2017 que também impactou a classe. Apesar de possuírem diversos direitos garantidos por lei, na prática, a realidade desses e dessas profissionais é bem diferente, como ficou ainda mais evidente durante a pandemia de Covid-19.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,5 milhão de postos de trabalho doméstico foram perdidos entre setembro e novembro de 2020. Segundo a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), hoje, o Brasil conta com mais de 7 milhões de trabalhadores nessa área. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que são, em sua maioria, mulheres (93%) negras (63%). Apenas 42% dessas(es) trabalhadoras(es) contribuem para a previdência social e só 32% possuem carteira de trabalho assinada.

Como disse a presidente da Fenatrad, Luiza Batista, em entrevista ao portal Universa, no Dia da Empregada Doméstica, “Não queremos ser da família”. Na entrevista, ela fala sobre a “relação de servidão” entre trabalhadoras e empregadores que perdura por décadas e rebate a ideia de que elas são “quase da família”: “Não somos e não queremos ser. Nós temos a nossa família. O que queremos é que nossos direitos sejam respeitados”.

Discriminação e violação de direitos

Muitas dessas pessoas se sentiram obrigadas – em alguns casos, de fato, foram obrigadas pelos próprios empregadores –, a continuarem trabalhando, mesmo que isso significasse se colocar em ainda mais risco, uma vez que precisam de transporte público para chegar em seu trabalho. Fora aquelas que são mantidas 24 horas no trabalho, em uma espécie de quarentena, mas que nada mais é que um cerceamento à liberdade.

Ainda segundo a Fenatrad, em março de 2020, o Ministério Público do Trabalho (MPT) orientou os empregadores a dispensarem as trabalhadoras com remuneração e para as funções tidas como essenciais (cuidadoras de idosos e pessoas com deficiência, babás e prestadoras de serviços para os profissionais atuantes na linha de frente) que fornecessem EPIs, transporte particular e horários especiais de trabalho.

Ao contrário disso, o que se viu Brasil afora foram casos de violação de direitos, ainda mais discriminação e violência, como o que aconteceu com Mirtes Santana. Em junho de 2020, quando a pandemia ainda estava com altos índices de disseminação, ela foi obrigada a continuar indo ao trabalho e, na impossibilidade de ter com quem deixar seu filho Miguel, de cinco anos, o levou para o trabalho. Ao sair para desempenhar a “tarefa” de levar o cachorro de Sari Corte Real para passear, deixou seu filho com a empregadora, que foi incapaz de cuidar do menino. Após pegar o elevador para procurar a mãe, o menino foi até o nono andar do prédio de onde caiu. O que restou para a mãe foi ver seu filho no térreo e pedir ajuda na tentativa de salvá-lo, conforme as imagens de segurança mostraram. Após quase um ano, Sari responde pelo processo em liberdade.

Vale destacar que, nesse caso, a família empregadora era do prefeito da cidade de Tamandaré, Sérgio Hacker e, portanto, de alguém que poderia arcar com os custos para manter sua funcionária em casa.

Além disso, ao contrário do que já foi muito visto nas redes sociais, não são as empregadas domésticas as responsáveis pela disseminação do novo coronavírus ou de levar o vírus para as casas de seus empregadores.

Não se pode esquecer que o novo coronavírus foi trazido para o Brasil por aqueles que viajaram para o exterior e, portanto, não se trata de trabalhadores domésticos.

Fome e auxílio emergencial

Considerada como a terceira categoria de trabalhadoras do Brasil, muitas dessas profissionais não conseguiram acessar o auxílio emergencial. E mesmo aquelas que conseguiram terão dificuldade em fazer esse dinheiro ajudar a levar comida para a mesa.

Ainda segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede PENSSAN, mais da metade da população e dos lares brasileiros enfrentam algum grau de fome nos últimos meses de 2020. Além disso, pessoas pretas ou pardas passam fome em 10,7% dos domicílios.

Considerando os dados de desemprego e fome no Brasil, é possível imaginar quantas pessoas passam por essas situações no país.

Portanto, é fundamental que quem puder ajude campanhas de arrecadação de recursos para famílias mais vulneráveis, como a Tem Gente com Fome, fortaleça o sindicato de trabalhadoras domésticas de sua cidade, mantenha o salário ou diário de quem trabalha na sua casa.

Como menciona a campanha da Fenatrad, “Cuide de quem cuida de você”. “É uma questão de saúde pública e de solidariedade. Quarentena não pode ser um privilégio”.

É por comida, por vacina e pela vida. É importante que a sociedade se mantenha mobilizada pelo auxílio de R$ 600 até o fim da pandemia. Por vacina para todas e todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Mulheres em Luta:

Entrevista com Luana Vieira, estudante de direito, produtora executiva do Pagode na Disciplina e coordenadora de Núcleo da Uneafro, no Jardim Miriam

Entrevista: Caio Chagas

Luana Vieira durante distribuição de ovos de páscoa no Núcleo Pagode na Disciplina Foto: Thiago Fernandes

Como é liderar as ações territoriais em um momento como esse?

Luana: Aqui no território do Jd. Miriam, apesar de não parecer, ainda existe muita pobreza concentrada dentro das comunidades e favelas do entorno, as  invasões nas ocupações cresceram absurdamente nesse período de pandemia, logo, predominou a insegurança alimentar – de modo que a procura por assistência também aumentou. Vendo o tamanho do estrago que poderia ocorrer com a falta de recursos financeiros, falta de alimentação e expansão do contágio, eu passei a assumir esse papel desafiador, eu diria,  no sentido de liderar a construção de uma estratégia de sobrevivência mesmo para o território, articular a campanha na tentativa de diminuir o impacto da pandemia na vida dessas pessoas, cansativo e um trabalho árduo, porque a gente nunca sabe se realmente vai conseguir atender a demanda, principalmente porque as famílias em vulnerabilidade são superiores ao número de doações. Há um ano, estamos em campanha, todos os dias, pensando como vai ser o dia seguinte dessas pessoas, que não têm emprego, não têm auxílio e não têm como se alimentar. A campanha contra a fome aqui no Jd. Miriam tornou-se prioridade indiscutível pra gente, atuar como liderança comunitária neste momento é muito difícil.

Como você observa a liderança feminina dentro dos movimentos sociais? Existe um espaço para discussões de gênero e maternidade?

Luana: Eu vejo que a desigualdade de gênero, em que o masculino é o dominante, ainda persiste muito, porém, mudanças em certos cenários estão acontecendo, posso presumir que seja por intuição, comunicação, organização ou até outros diversos atributos que, na hora, mostram diferença no ato de liderar pessoas e são qualidades valorizadas na hora de se caracterizar a liderança feminina, porém, os desafios enfrentados por mulheres em cargos de liderança são muito mais pertinentes, visto que a mulher, além da carga horária e ter que cumprir com outras demandas fora do movimento, por exemplo, dentro da empresa, às vezes, permanece como principal responsável pelos cuidados com os filhos e com os afazeres domésticos, assumindo uma jornada que chega a ser até quatro vezes maior,  a de militante, trabalhadora, mãe, estudante, esposa. Existe  uma sobrecarga de trabalho ainda desmedida que intensifica tanto os percursos das demandas de atuação dentro do  movimento, das conquistas profissionais femininas e até a consolidação de uma carreira e, muitas vezes, isso não é levado para discussão, as pessoas não se interessam pelo cansaço e sobrecarga das mulheres que se comprometem com o movimento. Discussões como essas são importantes para compreender as dificuldades enfrentadas para equilibrar a vida pessoal, profissional e também de luta.

Como a pandemia tem afetado a sua saúde mental? Existe uma jornada tripla que te sobrecarrega (casa, trabalho e filhos)?

Luana: A pandemia afetou bastante a minha saúde mental, a frequência das pessoas que nos procuram relatando os seus problemas tem me deixado mal, na verdade, imagino que pelas condições sociais em que vivemos, os impactos se intensificaram, a pandemia só acirrou a situação, a gente cumpre dupla jornada, acompanho o desenvolvimento escolar dos meus  filhos, a família toda passou a permanecer mais dentro de casa e por muito mais tempo, além das preocupações relacionadas ao risco de contaminação, a urgente  necessidade de mudanças de hábitos de higiene, redução de convívio social, familiares adoecidos, lidar com perdas, etc., todas essas circunstâncias geram um estresse enorme e isso se torna um gatilho detonador de uma possível doença mental. A pandemia nos deixou mais vulneráveis, talvez, devido à falta de perspectivas e incertezas quanto ao futuro, o que pode causar mais sensações de desconforto, angústia, ansiedade e desamparo.

Ser mãe te trouxe uma nova perspectiva de atuação dentro do movimento? Quais os aprendizados?

Luana: Eu penso sempre nos meus filhos, quando vejo uma mãe em situação de desespero, fico aflita. É através das demandas do meu bairro, hoje, que eu posso ativar memórias de um percurso de lutas, eu recrio uma memória coletiva que também é política, e me fortaleço para atuar, um processo de compreensão de saberes e aprendizados que eu procuro a partir da participação de outras mulheres que eu venho acompanhando na luta. São mulheres como eu, mães, avós, tias, irmãs, amigas, é como se eu colocasse todas as nossas vivências em xeque, trazendo fortalecimento, reconhecimento e pertencimento que aparecem no dia a dia, a partir das nossas narrativas que também são nossas histórias, são histórias que tangenciam essas vivências. Na minha interpretação que se refere ao momento da minha vida e da vida de outras mulheres, é que, além de conseguirmos atuar nas multitarefas, a gente se coloca no espaço da rua, ou mesmo em casa, fazendo política, permitindo nos conhecer, nos conectar, nos fortalecer e entender a relação entre sujeito e sociedade.

 A luta do movimento negro brasileiro no Brasil, historicamente, é construída e articulada pelas mulheres negras. De que forma você se vê dando continuidade à luta ancestral?

Luana: O momento que estamos vivendo é reflexo de uma sociedade que avança na desigualdade e na luta incansável pela garantia de direitos e que se mantém desproporcional pela sua continuidade de métodos excludentes, como racismo, machismo e homofobia. Vejo que tivemos alguns avanços ao longo da luta das mulheres negras, mas não o suficiente para destruir as mazelas deixada pela escravidão, e por essa falsa abolição, a minha busca é por continuidade dessa luta, em busca de condições melhores ao nosso povo, politicas afirmativas e de bem viver para mais da metade da população – nós, negros. Eu reconheço o valor positivo da minha ancestralidade africana, portanto, minha prioridade de luta é pela garantia de dignidade e resistência dos meus iguais.

A Coalizão Negra Por Direitos convocou as manifestações do “13 de Maio de Lutas”. A ação mobilizou uma grande mobilização nacional contra o genocídio da população negra brasileira em curso há mais de 130 anos, mesmo depois da abolição da escravatura – registrada em 13 de maio de 1888. Os atos acontecem em razão das diversas ações policiais em todo o Brasil, com destaque para a chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, no dia 6 de maio, que fez a população acordar sob intenso tiroteio, trabalhadoras e trabalhadores baleados no metrô e, principalmente, o assassinato de mais de 25 pessoas. Chega de Genocídio!

Erick Ovelha – Covereador da Mandata Coletiva Quilombo Periférico

“A gente sabe que o dia 13 de maio é marcado por uma falsa abolição, que foi a assinatura da Lei Áurea. A princesa Isabel que me desculpe, mas a gente ainda tem que lutar pelo que é nosso, pela nossa liberdade, pelo nosso direito de viver, pelo nosso direito de estar aqui hoje fazendo essa manifestação porque muitos outros corpos já caíram. Caíram pela bala, pelos açoites dos senhores de engenho, pelas revoluções que nosso povo já fez.”

Douglas Belchior – Integrante da Uneafro Brasil e Coalizão Negra Por Direitos

“O racismo é um sistema de dominação e o nosso país é construído com base nele. Essa hierarquia racial que nos é imposta faz com que algumas vidas valham menos que outras. Vivemos isso mais uma vez no Jacarezinho, mas não apenas. Esse é um projeto de necropolítica do Estado brasileiro defendido por Jair Bolsonaro.”

Evandro Fióti – Músico e Criador do Laboratório Fantasma

“Quando a gente convive com o genocído negro por tanto tempo, é importante se mobilizar e dar um basta. O que estamos vivendo no Brasil é o extermínio da população negra, não podemos mais permitir que esse tipo de coisa seja normalizada. Nós somos as maiores vítimas da pandemia, somos as maiores vítimas da violência policial e da fome.”

A Uneafro Brasil esteve presente nas mobilizações que ocorreram na cidade de São Paulo e no Rio de Janeiro contra as chacinas, o genocídio do povo negro e as políticas de extermínio do Estado brasileiro!

Foto: Vanessa Vicente

Renata Prado – Frente Nacional de Mulheres do Funk

“É importante a gente estar na rua para reivindicar o nosso direito de viver. Principalmente quando se trata da juventude do funk, porque é uma juventude que está na base dessa pirâmide de violência e que sofre muito com a repressão militar. Hoje, não é só a Covid que mata, podemos ver isso na chacina do Jacarezinho e isso corresponde ao que acontece nos bailes funk há mais de 30 anos. A gente não pode esquecer dos 9 jovens de Paraisópolis que foram mortos pelo Estado e que ainda não tiveram uma resposta pelo que aconteceu, por isso devemos ocupar as ruas.”

Babiy Querino – Dançarina, Palestrante e Escritora

“Quando a gente fala da falsa abolição, a gente fala de encarceramento, a gente fala sobre jovens que são assassinados todos os dias no Brasil. Estamos gritando para que esse genocídio acabe.”

Foto: Thiago Fernandes

LEIA: Uneafro Brasil - 12 anos de luta

Em 2021, a Uneafro Brasil completa 12 anos de construção coletiva em prol da educação popular. Já são, aproximadamente, 15 mil jovens que passaram pelo cursinho e puderam ampliar suas possibilidades de acesso ao ensino superior e 39 núcleos de apoio em territórios de São Paulo e no Rio de Janeiro, com o trabalho grandioso de profissionais da educação e ativistas do movimento negro das mais diversas áreas.

Tudo isso começou quando cerca de 100 jovens estudantes e ativistas reuniram-se em frente ao prédio da Faculdade de Medicina da USP, no dia 5 de março de 2009, para um ato político e simbólico, denunciando a ausência de pessoas negras na instituição. Durante o ato, os manifestantes bloquearam a Avenida Doutor Arnaldo e seguiram até a Avenida Paulista, até a altura do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), e fizeram a fundação da União de Núcleos de Educação Popular Para Negres e Classe Trabalhadora, a Uneafro Brasil.

Ao longo dessa caminhada, a Uneafro Brasil buscou o protagonismo da juventude negra e ousou desafiar as estruturas educacionais, colocando pretinhas e pretinhos na universidade, no mercado de trabalho e no centro do debate político. Esse livro é um registro da história, é um registro do presente. Convidamos você, parte tão importante da nossa construção, a adentrar nos relatos dessa obra e vislumbrar nosso quilombo.

 

Baixe gratuitamente o livro no site da Uneafro Brasil:

uneafrobrasil.org/livro_uneafro/

Assista: POSE

A série Pose se passa no final da década de 1980, mostrando o início da cena dos bailes LGBTQIA+ e da cultura de luxo. A trama estabelece uma narrativa amarrada à luta do movimento Queer contra o conservadorismo estadunidense e a onda de HIV negligenciada pelas autoridades que tratavam o tema como castigo divino. Ainda que os personagens principais sejam expulsos de casa, ainda que rejeitados pela sociedade, ainda que perdendo seus grandes amores, constroem uma ligação fraternal que se torna o que mantém a comunidade viva.

Você é professor ou aluno da UNEafro, é da quebrada, curte e faz arte negra e periférica? Dê um salve!

Mande um e-mail para [email protected] e mande seu trabalho aqui para toda a nossa comunidade ver!

Núcleo Virtual

Para tentar atender nossos alunos durante a pandemia, a UNEafro está lançando um Núcleo Virtual que deve começar suas atividades na primeira semana de junho.

Professores de diversos núcleos se juntaram para produzir material e ajudar os alunos nas atividades em um espaço virtual.

Enquanto seguimos tentando adiar o ENEM, fazemos também o possível para preparar os alunos de ensino médio nas periferias.

Colabore Conosco

A principal missão da UNEafro é tirar o corpo negro e pobre da linha do tiro, do contingente encarcerado pelo estado, da fila do hospital e dos números das estatísticas da violência. Para isso, desenvolve ações que buscam oferecer oportunidades de estudo e trabalho em comunidades negras e pobres.

Você pode fazer parte e ser responsável por esse importante trabalho. Doe!

Banco do Brasil
Agência: 4054-1 | CC: 285.078-8
Em nome da Associação Franciscana DDFP
CNPJ: 11.140.583/0001-72

Expediente: Edição: Caio Chagas, Jéssica Ferreira | Diagramação: Gabriela Bosshard | Revisão: Renata Toni | Contato: [email protected]

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