Pré-Candidatura coletiva do movimento negro disputará vaga na Câmara de Vereadores de SP composta por: Elaine Mineiro, Débora Dias, Julio Cezar, Samara Sosthenes, Erick Ovelha e Alex Borges / FOTO: Rosa Caldeira

 

Reportagem: Caio Chagas e Jéssica Ferreira

Desde a última eleição em 2018, as chapas coletivas se tornaram uma dinâmica crescente na política brasileira. Rompendo com um processo tradicional de mandatos individualizados, a lógica desse novo modelo impõe a prática coletiva e a inserção em rede de novas ideias na elaboração das políticas públicas. A chapa do quilombo periférico, como é chamada a articulação entre Elaine Mineiro, Débora Dias, Julio Cezar, Samara Sosthenes, Erick Ovelha e Alex Borges, chega em um momento importante para a necessidade de inserção da periferia no legislativo municipal.

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A articulação pela construção da chapa se deu no final de 2019, em uma reunião com ativistas do movimento negro e sociedade civil. Julio, Samara, Elaine e Débora já articulavam trabalhos junto à Uneafro Brasil, enquanto Erick e Alex atuam em coletivos culturais nas periferias. “A gente tem uma unidade política de afinidade social e humana”, afirmou Júlio Cezar, sobre o processo de troca de experiências com os integrantes da pré-candidatura à vereança de São Paulo. “O coletivo acaba se tornando uma nova maneira de ver a sociedade”, aponta Alex Borges. Para romper com as estruturas tradicionais da política, Débora Dias reforça que é essencial romper com a lógica individualista. “O capitalismo, o neoliberalismo, nos coloca goela abaixo meritocracia de existir, ser, pensar e agir. Quando a gente vem na contracorrente, na candidatura coletiva, podemos apresentar outras maneiras de existência, organização e de vida”. Samara Sosthenes observa a quebra das narrativas tradicionais pela inserção de uma narrativa periférica na política. “Somos  pessoas com histórias e perspectiva de vida diferentes mas da  mesma origem e ancestralidade isso torna nossa candidatura justa e diversa”.

“A pandemia expôs uma realidade gritante, a da falta de acesso à internet. Sem o contato físico que acontecia diariamente, novas dinâmicas surgem para levar as ideias da campanha até as pessoas”, observa Débora Dias. “A comunicação das redes sociais, as lives fazem com que a gente tente se aproximar cada vez mais das pessoas nesse momento de pandemia”. Erick vê como necessária a discussão racial e de classe para falar com as pessoas, “Agora, com a pandemia, podemos observar todo o despreparo do estado em lidar com questões até mesmo da saúde negra, é muito evidente quem está morrendo mais”, para ele, isso seria essencial para avançar no projeto do país. O Consórcio dos Veículos de Imprensa mostrou que, das 27 Secretarias de Saúde dos Estados, apenas 8 informam dados raciais. 

Um Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA mostrou que as mulheres negras só alcançam 2% de representação nas instâncias institucionais do Brasil. Mas somam 55,6 milhões, chefiam 41,1% das famílias brasileiras e estão na linha de frente das lutas sociais por melhorias dos serviços públicos de saúde, moradia e educação. São essas mulheres que enfrentam o Estado pela violência e o encarceramento dos meninos pretos. Em 2018, as mulheres negras receberam apenas 6,7% do dinheiro dos partidos destinados à campanha. “A gente precisa de mais mulheres pretas comprometidas com as pautas da periferia e da negritude dentro desses espaços de decisão em todas as instâncias”, afirma Débora Dias. A articuladora social Samara conhece na pele as problemáticas da periferia ainda por se tratar de um corpo trans “o abandono do estado ainda e maior se tratando da população negra,periférica e LGBTQIAP+  isso precisa mudar”.

Débora Dias apresentando o Projeto Agentes Populares de Saúde na Zona Leste

 

A onda de atos antirracistas no mundo todo trouxe para o debate a ausência de representantes políticos eleitos nas casas legislativas brasileiras. “O racismo é algo presente em nossa sociedade e todos nós, pretos e pretas, sofremos impactos dele em nosso cotidiano”, afirma Julio Cezar sobre a ausência de representação proporcional de negras e negros na política. No Congresso Nacional, apenas 17,8% dos parlamentares são negros, dos 594 eleitos para a Câmara e no Senado, apenas 106 se declaram pretos ou pardos. Já na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, 4 deputados são negros. Para Erick, o racismo estrutural como política de embranquecimento da sociedade dificultou a inserção institucional de negros na política. Ele aponta também que no âmbito partidário há uma dificuldade, mesmo dentro dos partidos progressistas, “Um partido de esquerda que não tem representatividade negra está muito atrasado. A revolução é negra, é feminista é LGBTQI+ e periférica”.

Outro ponto central da candidatura é o combate ao genocídio negro nas periferias. Segundo dados da corregedoria da Polícia Militar de São Paulo publicados no Diário Oficial, o número de mortos pela polícia, entre janeiro e maio deste ano, chegou a 442 pessoas, o maior de toda a série histórica iniciada em 2001. Mesmo diante da pandemia, as abordagens policiais nas periferias têm acontecido de maneira abusiva, “Ainda temos políticas públicas que facilitam esse tipo de ação”, ressaltou Alex . Nunca o tema esteve tão retratado na mídia, Débora acredita que isso se dá graças ao grande compartilhamento das redes sociais. “Sempre aconteceu o genocídio de maneira deliberada, mas a informação circula, hoje, dentro das redes, de maneira rápida, possibilitando os movimentos agirem mais rapidamente”, finaliza.

 

Elaine Mineiro durante ato contra a tortura em frente ao Mercado Ricoy na Zona Sul

A educação popular se tornou um mecanismo para que muitos jovens possam acessar a educação e possam adentrar as universidades. No ano de 2019, um longo debate sobre o passe livre para estudantes de cursinhos populares foi vetado pelo atual prefeito Bruno Covas. Débora Dias, que hoje é coordenadora e articuladora da Uneafro Brasil, ressalta a importância de abordar a temática dentro da Câmara. “A gente precisa de leis de fomento para a educação popular. Os alunos que acessam os cursinhos nas quebradas também precisam ocupar outros locais”, conclui. Pensando na pauta da educação pública, Julio Cezar observa que é essencial o fim do ‘Teto de Gastos’ trazido pela PEC 241, “queremos defender a ampliação de políticas públicas estatais de educação e, principalmente, garantir que ela seja laica”.

Julio Cezar, que é babalorixá da casa Ilê Ayê Dun, lança um fio de esperança para o futuro das crianças e jovens, “A juventude tem condição de mudar o rumo do nosso país”. Para Alex, é importantíssimo compartilhar o saber com a juventude. “Ou a gente compartilha o máximo que sabemos, ou vamos ficar cada vez mais distantes da juventude”, para ele, é essencial se inserir na linguagem desses jovens, “Temos que ocupar o sarau, o baile, as redes”. Finalizando, Débora Dias, de 22 anos, deixou uma mensagem para aqueles que, como ela, vivenciam diariamente as opressões contra a juventude preta, “É a fase de nossas vidas que está sendo roubada pela morte ou pelos processos de adoecimento físico e psíquico, pela falta de oportunidades. Pensar em estar numa pré-candidatura e dialogando com os processos da juventude é pensar sobre a minha própria existência”. 

Todas e todos que quiserem apoiar essa importante iniciativa, podem fazer seu cadastro AQUI

 

Conheça cada pessoa que compõe a pré-candidatura coletiva:

Quilombo Periférico: @quilomboperiferico

Elaine Mineiro: @ecmineiro

Debora Dias: @___deboradias___

Júlio Cesar: @juliopjmp

Alex Barcellos: @alexbbarcellos

Erick Ovelha: @erickovelha

Samara Sosthenes: @pretasdefendem

Email de contato da candidatura: [email protected]