Além da energia da juventude negra e periférica que contagiou o campus da USP, na zona oeste de São Paulo, uma programação especial marcou a comemoração que contou com a presença de familiares de Marielle.

Fotos: Pedro Borges / Thiago Fernandes / Lucas Gabriel

Há dez anos, o dia de sábado para a Uneafro Brasil é marcado pelo encontro de jovens de diferentes territórios periféricos, que se ocuparam em uma sala de aula em busca do sonho de ocupar as universidades públicas e privadas existente no Brasil e no exterior.

Mas no último sábado (30), essa história ganhou outro capítulo, ao reunirmos mais de mil jovens no saguão do prédio da FFLCH-USP, na zona oeste da capital paulista, para comemorar esses anos 10 anos de luta pela educação da população negra e periférica. Com uma programação especial de celebração, realizamos a entrega do prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos e uma caminhada pelo campus da USP, para marcar na memória de muitos jovens ali presentes aquele momento de pisar pela primeira vez na cidade universitária.

“Para nós é muito mais do que simbólico comemorar 10 anos na USP, já que a Uneafro começa dentro deste espaço, quando 100 jovens ocupam o espaço do prédio de medicina para questionar a não presença de negros no espaço e para pedir por cotas raciais”, argumenta Fabíola de Carvalho, coordenadora de articulação dos 35 núcleos Uneafro.

Ela reforça que esse momento mostra o impacto da Uneafro na vida dos jovens moradores dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro: “hoje, voltamos na USP para mostrar como a Uneafro está consolidada. Já não somos mais 100 jovens, somos mil e muitos mais, porque além da região metropolitana de São Paulo, estamos no interior e também em duas cidades do Rio de Janeiro.”

Um dos resultados da luta por cotas raciais articulada pela Uneafro junto a outras organizações e movimentos sociais está representado numa pesquisa do IBGE, realizada em 2017, que aponta o aumento de 52% de pessoas negras nos cursos acadêmicos da USP. Embora o número seja animador, ainda há muito trabalho a ser feito, acredita Douglas Belchior, coordenador geral da Uneafro. “O Brasil promoveu alguns avanços importantes na educação para a classe trabalhadora nos últimos 15 anos. Mas o atual governo é marcadamente contrário a esses avanços”, afirma ele, em entrevista ao canal TVT.

As atividades começaram às 9h com uma palestra sobre as singularidades da prova do ENEM com o professor de física Giba, do cursinho da Poli. Depois, os jovens que estudaram no cursinho da Uneafro e foram para a universidade, se formaram e passaram a coordenar núcleos da organização deram depoimentos sobre a sua trajetória para os colegas presentes.

Neste bate-papo sobre trajetórias, Belchior relembrou o papel da organização na luta anti-racista e democrática: “enquanto alguns lembram com saudades a ditadura, nós seguimos em luta, construindo um amanhã de direitos, justiça e democracia.”

Ao longo de toda celebração, a presença da identidade cultural da população negra e periférica foi destacada e representada a partir de diversas linguagens artísticas, uma delas, foi a participação do Pagode na Disciplina, comunidade de samba do Jardim Miriam, zona sul de São Paulo, que busca resgatar o elo entre os moradores e o tradicional samba.

À tarde, os estudantes fizeram uma caminhada pela Cidade Universitária, no Butantã, para conhecer os prédios e departamentos da instituição. Esse foi o primeiro contato com a USP para a maior parte dos presentes. “O olhar de cada jovem dizia muita coisa. Ao andar pelo campus, pelos olhares, eu podia imaginar o que eles pensavam: ‘eu estou aqui hoje para conhecer este espaço que também é meu, mas eu estou me preparando porque eu vou voltar pra cá’. Isso para nós é uma conquista muito grande porque significa que o trabalho de base está sendo muito bem feito”, comenta a coordenadora de articulação dos núcleos.

 

PRÊMIO MARIELLE FRANCO

Devido ao número de participantes, os dois auditórios reservados para o evento não comportaram o público. Por isso, a entrega do Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos e Educação Popular aconteceu no vão livre do prédio da FFLCH-USP.

foto uneafro 10 anos prêmio Marielle Franco

Esta foi a segunda edição do prêmio que visa reconhecer a atuação de defensores dos direitos humanos e da educação. Com o nome da ativista assassinada em 2017, a premiação reflete também a trajetória da vereadora, que acessou à universidade por meio de cursinho popular.

Sobre a premiação, Fabiola ressalta: “este prêmio vem reconhecer os ativistas dos direitos humanos que estão trabalhando na base da educação, diretamente ou indiretamente dentro dos núcleos. Acreditamos que estas pessoas premiadas precisam ser conhecidas e reconhecidas pela sua atuação. Isso também desperta na juventude presente no evento um olhar de gratidão para aqueles que fazem as atividades acontecerem, porque até os jovens chegarem ali muita coisa precisou ser feita”.

Ao longo da premiação, integrantes dos núcleos da Uneafro foram convidados para anunciar os homenageados. Receberam a recordação Cida Bento da CEERT, Sarau da Cooperifa, Maria Railda Silva e Miriam Duarte, da Associação Amigos e Familiares de Presas/os (AMPARAR-SP), Luayara e Anielle Franco, representando a família de Marielle, e os coordenadores da Uneafro Vanessa Nascimento, Adervaldo Santos e Elaine Correia.

Confira abaixo algumas fotos que retratam momentos marcantes do encontro.

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