Palestra-de-Leila-sobre-o-_Preta-Comprando-de-Preta

Por Caio Chagas e Jéssica Ferreira

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que 12,5 milhões de pessoas encontram-se desempregadas, ou seja, cerca de 11,8% da população tendo como métrica o terceiro trimestre deste ano. Ao fazer um recorte racial desses números a parcela da população considerada negra, pretos e pardos, somam 64,6% do total de pessoas sem emprego segundo dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua) feita no quarto trimestre de 2018. A faixa entre pessoas desempregadas que correspondem ao maior número é a de jovens de 18 à 24 anos com 27,3% do total de pessoas sem ocupação formal. 

Em 2005, ano em que foram implementadas ações afirmativas voltadas para acelerar o ingresso de jovens negros nas universidades, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos em idade universitária frequentavam o ensino superior. Já em 2015 esse número subiu para 12,8%. Os dados são da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais – uma análise das condições de vida da população brasileira de 2015. Por outro lado, 53,2% dos negros em idade  para cursar o ensino superior, estão cursando o ensino médio ou fundamental, em comparação ao percentual de 29,1% brancos. 

Ainda sobre Educação, a partir dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE) de 2017, comparando a taxa de entrada no ensino superior por cor ou raça, notamos que 51,5% dos brancos com ensino médio completo ingressaram no ensino superior, enquanto apenas 33,4% dos pretos e pardos nas mesmas condições conseguiram entrar. A desigualdade racial também é explícita entre os alunos que cursaram o ensino médio em escolas públicas, apenas 29,1% em comparação aos 42,7% de pessoas brancas que adentraram as universidades. Considerando a taxa de conclusão do ensino superior, os brancos somam 22,9% em comparação aos 9,3% dos negros

Tratando de mercado de trabalho o maior contingente de trabalhadores atua na Agropecuária (60,8%), na Construção civil (63,0%) e nos Serviços domésticos (65,9%), justamente as três atividades que possuíam menores retornos financeiros em 2017, segundo o IBGE. Numa análise geral dos dados obtidos em 2017, as pessoas brancas ganhavam em média 72,5% a mais do que pretos e pardos. 

A desigualdade no rendimento médio constatada segundo cor ou raça se mantém significativa, considerando a carga horária trabalhada e o nível de instrução. A população branca recebia por hora um rendimento superior à população preta ou parda em todos os níveis de escolaridade, sendo a diferença maior no nível de instrução mais elevado, R$ 31,90 contra R$ 22,30, ou seja, 43,2% a mais para brancos.

Inclusão de negros no mercado de trabalho

Com mais de 9000 inscritos em seu banco de talentos, o  projeto EmpregueAfro é uma consultoria de recursos humanos voltada na inclusão de diversidade étnico-racial. Criada em 2004, o projeto tinha como premissa a capacitação de jovens negros para a admissão em multinacionais. 

Com o tempo a demanda maior passou a ser por uma consultoria em inclusão de pessoas negras, debate temas através de workshops, treinamentos e recrutamentos de seleção em organizações. A CEO e fundadora da consultoria, Patrícia Santos, ressaltou como o racismo dificulta a entrada de jovens negros no mercado de trabalho. “Recrutadores brancos que não passaram por um processo de conscientização, tendem a reproduzir o racismo e contratar pessoas parecidas com elas”.

Foto: EmpregueAfro Divulgação

A especialista em carreira vê o racismo em todas as esferas da estrutura hierárquica das empresas. Na opinião dela a jornada é longa para que esses jovens ocupem cargos de liderança. “Há grande dificuldade para esses jovens crescerem profissionalmente e de alcançarem os cargos de poder. Os gestores precisam delegar atividades, confiar no trabalho e permitir que eles cresçam profissionalmente, precisam acreditar que é possível crescer”. 

Patrícia ressalta que muitas conquistas só foram possíveis graças às articulações do movimento negro. “O movimento nos últimos anos tem se organizado de forma a pressionar as marcas nas redes sociais. Isso contribuiu muito para as discussões chegarem até as grandes empresas e, de certa forma, forçar programas de porta de entrada principalmente para esses jovens”.

Ketyanne Silva trabalha em um agência de publicidade e participou do programa EmpregueAfro. Para ela, uma das principais dificuldades que encontrava para a entrada no mercado de trabalho era a falta de experiência “Os projetos são muito importantes para a construção de uma carreira a longo prazo”. Outras dificuldades que constata para ascensão desses jovens em cargos de poder são a busca das empresas por profissionais que fizeram faculdades renomadas, o inglês fluente e o fato de os chefes serem brancos. Ela acredita que as articulações entre pessoas negras têm ajudado a abrir portas com resultados econômicos reais. 

Ketyanne é fundadora da página “Planilhas de Pretos” que tem como intuito compartilhar planilhas com indicações de profissionais negros de diversas áreas. “Minha motivação é, de um lado, dar visibilidade a profissionais negros. E por outro lado,  facilitar o acesso das pessoas à profissionais que entendam suas vivências.” Para ela o mercado de trabalho ainda tem muito a se transformar “Espero que daqui a 10 anos não tenhamos que assinar pacto de inclusão porque será algo natural e não exceção.”

Leila Evelyn é formada em relações públicas e atua como analista de comunicação sênior em uma multinacional. “ Na minha área de trabalho, não são encontrados negros em cargos de poder”. Segundo ela o problema se torna maior quando analisamos os cargos como um todo. “trabalhei em uma equipe que tinha somente 10 pessoas negras. Quando expandimos para os funcionários da limpeza esse número chega a 25”.

Durante sua vida universitária experienciou por diversas vezes o racismo institucional. Segundo ela, era algo latente que a impedia o tempo todo de permanecer com tranquilidade na instituição. “Isso acontecia até mesmo nas temáticas dos trabalhos, eu não podia falar de mim, da minha identidade, mas quando [os estudantes] brancos faziam trabalhos sobre [as pessoas] brancas, não tinha problema”. 

Redes de apoio e contatos 

Para Leila, o mais importante tem sido experienciar a construção de um projeto pessoal com intuito de fomentar uma rede de apoio para pessoas negras entrarem no mercado de trabalho. “É uma realidade muito solitária nesses grandes centros, as pessoas que vem da periferia, saem de manhã e voltam só à noite, por conta disso, nem conseguimos desenvolver vínculos com as pessoas que moram próximas.”

“O projeto ‘Pretas comprando de Pretas’ é uma iniciativa de Leila Evelyn com outras jovens negras, que surgiu a partir de sua experiência no movimento “Enegrecendo a Comunicação” que participou em 2015. “Surgiu dessa emergência da solidão que eu sentia” diz. Hoje o grupo conta com mais de 8.000 mulheres que vendem seus produtos e trocam experiências sobre o empreendedorismo econômico de mulheres negras. “O projeto visa construir essas pontes. Sem o contato com o outro, você não consegue chegar a lugar nenhum”. 

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Ela enxerga para o futuro a necessidade de construção de lideranças e aprofundamento da questão racial como primordiais para a criação de espaços para os jovens no mercado de trabalho “muitas dessas sementes que estamos plantando vão estar dando os primeiros botões”.

Verônica Dudiman também trabalha em uma agência de comunicação com planejamento e é cocriadora do projeto ‘Indique Uma Preta’, iniciativa criada em 2016 como rede de apoio, empregabilidade e desenvolvimento profissional para mulheres negras. O grupo no Facebook conta com mais de 3000 mulheres participantes, que trocam experiências profissionais, ampliam a rede de contatos e ainda podem participar de cursos oferecidos pela página para melhorarem seu currículo.

 Na opinião dela, o mercado de trabalho só tem a ganhar com as pressões que o movimento negro tem feito para aumentar a empregabilidade dos profissionais negros. “Fica mais real, a empresa tem entregas mais próximas do que um consumidor espera, visões plurais. As campanhas e o repertório se ampliam”. Veronica também afirma ter sofrido situações de racismo institucional ao longo de sua carreira. Ouvia comentários sutis sobre como arrumava seu cabelo, como falava e até mesmo como organizava seu trabalho. “São marcas que te impactam de maneira tão forte que você acaba carregando elas para outros espaços”. 

Segundo Dudiman, as redes de apoio ainda são necessárias para dar uma perspectiva maior aos jovens negros da periferia. “Até hoje, a maioria das contratações se dá por quem indica ou pela prioridade em universidades prestigiadas. Os jovens negros, em sua maioria, não estão ali”. Antes de entrar no mercado de trabalho de criação e estratégia ela já sentia a necessidade de ter que provar o seu valor. “Você tem que ser duas vezes melhor em tudo que faz. É um  processo que permeia por toda a vida”. Verônica vê as articulações como um processo de tomada de consciência da população negra sobre si. “Primeiro nós tivemos os programas de cotas para as universidades, agora estamos tendo essa conscientização no mercado de trabalho e se continuarmos assim teremos um cenário mais positivo que o atual”.

 

O cientista social e membro do Conselho Geral da Uneafro, Wellington Lopes observa que as maiores dificuldades para jovens negros ingressarem no mercado de trabalho reside em dois aspectos: a baixa escolaridade e a falta de oportunidade. “Muitos jovens negros vão aceitar trabalhos informais como uma maneira de sobreviver. Aos 16 anos eu trabalhava numa loja de roupa, informalmente, eu era vendedor e estoquista, chegava a trabalhar 10 horas por dia, até meia noite.” Sobre o racismo no ambiente de trabalho ele lembra “às vezes eu ouvia apelidos, o clássico “neguinho” sem nome”.

Wellington que também é coordenador da Uneafro do Núcleo de Poá acrescenta que além da falta de oportunidades no mercado de trabalho, os jovens negros sofrem com a falta de acesso às universidades e quando conseguem entrar se deparam com outros desafios para se manter. 

Aos 18 anos conseguiu entrar na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). Ele dividia o aluguel de uma república com quatro amigos “A gente só tinha uma bolsa financiada pelo CNPq, de 400 reais” diz. Para Wellington foi fundamental a ajuda que teve dos amigos e até mesmo de professores da Uneafro. Por fim observa que a universidade ainda tem muito o que avançar para no sentido de inclusão de estudantes negros. “Quando estamos diante de algo que não nos representa  e ainda temos que sobreviver no cotidiano, estudar parece ficar cada vez mais desinteressante. Por isso, falar sobre a necessidade de termos negros nas universidades tem a ver com a necessidade de falarmos sobre como podemos garantir o acesso de grupos antes excluídos da universidade.” 

Wellington ressalta que a falta de oportunidades nas regiões periféricas faz com que esses jovens tenham que se deslocar em grandes trajetos em busca de emprego “isso acaba condicionando para o desespero na procura de vagas, a maioria acaba optando por trabalhos informais como uma maneira de sobreviver”. Para ele, a ausência de diversidade no mercado de trabalho afeta o planejamento de vida para as pessoas negras. “Precisamos compreender como mudar esse cenário” conclui.

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