Começo esse texto partindo da premissa de que mulher negra não vive, resiste. Considerando que essa premissa se fez necessária para que eu entendesse muita coisa sobre mim mesma e sobre o lugar que nós mulheres negras ocupamos em uma sociedade que se mostra cruelmente racista.
Lembrando de quantas vezes perguntaram se eu acho mesmo que ainda existe racismo e se meu discurso hoje já não é assunto superado, me coloquei a tentar reconstruir, na minha vida e na vida de pessoas próximas a mim, quantas vezes o racismo se apresentou. Ainda nesse caminho, me lembrei de quantas vezes também ouvi que o racismo hoje é tão sutil que quase nem se percebe.
Pois bem, esse tal assunto superado se mostra incrivelmente presente no dia a dia da mulher negra, aparecendo de forma cruel e agressiva, não poupando esforços para que aprendamos desde cedo, que em uma sociedade que ostenta padrões brancos de beleza e comportamento, a mulher negra não é gente, é coisa. E coisa não ama, coisa não chora, coisa não sente dor, coisa é só… coisa.

E já que somos coisas, podemos ser usadas como tais. É isso! Se coisa se usa, a licença está dada para que nos usem como e quando quiserem. Sendo assim, nosso corpo pode ser utilizado como um brinquedo sensual e sexual. E nessa brincadeira, seguem nos usando a vontade.

E indago se é sutil aprender desde cedo que seu cabelo é feio, que seu corpo simboliza a promiscuidade. Se é sutil saber que ocupamos os piores e os mais mal remunerados cargos no mercado de trabalho.

E é diante dessa falsa sutileza que respondemos: não seremos sutis em nossas lutas. A luta diária nos ensinou que viver é pouco para a mulher negra. Resistimos o tempo todo. E resistiremos ainda mais, soltaremos nossos crespos, ganharemos o mundo com a nossa raça. E é dotada dessa raça, que gritamos: NÃO SOMOS COISAS! SOMOS GUERREIRAS!

E quando nos descobrimos guerreiras, “a coisa” muda de cor. Não somos mais da cor do pecado, ou morenas, ou pardas. SOMOS PRETAS.

Para que um dia as marcas da violência diária se apaguem dos nossos corpos e olhos. Pelo dia em que poderemos amar e ser amadas, donas de nós, senhoras do nosso corpo, RESISTIREMOS.

Resistiremos na luta, pelos nossos irmãos que morrem todos os dias nas mãos racistas do Estado. Resistiremos na luta pelas nossas crianças.

Resistiremos sempre.
Texto dedicado a companheira Ester, que no alto de sua coragem esbravejou um grito de resistência e disse não a mais uma tentativa de violência contra a mulher preta. Que o grito de Ester abra caminhos para novos gritos.
E é sobre a perspectiva de que Racismo se combate, seguiremos combatendo, engrossando a luta por uma sociedade justa, livre e plural.
Engrossamos também a luta feminista, mas exigimos que esse debate seja feito com um recorte de raça, entendendo que a luta pela emancipação da mulher só é dotada de valor, quando entende a necessidade do reconhecimento do peso da opressão que recai sobre a mulher preta!

Beatriz Lourenço, Militante da UNEafro-Brasil, Núcleo Panteras Pretas – Jd. Miriam
Estudante de Direito – Puc/SP