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Por
Fernando Conceição
Fonte: Observatorio da imprensa
O
que o Estado Democrático de Direito, o que o republicanismo,
o que o interesse público podem esperar quando se alinham,
em uníssono à maneira de campanha, três conglomerados de comunicação
que, no Brasil, são os proprietários privados dos mais influentes
veículos da imprensa nacional? Uma única coisa: o abuso do
direito constitucional à liberdade de expressão e de opinião.
A coação dos demais poderes institucionais. O desrespeito
ao princípio de igualdade de oportunidade, cerne da democracia.
Pois
é exatamente o que a sociedade brasileira assiste hoje, estupefata,
com a sórdida manipulação encampada pela Rede Globo, Grupo
Folha e Editora Abril - respectivamente donos da TV aberta
de maior audiência, com suas filiadas em todo o território
brasileiro, controladores da TV por assinatura, de O Globo,
de emissoras de rádio; dos jornais Folha de S. Paulo e Valor
Ecnômico, do poderoso portal UOL; da maior e mais potente
revista noticiosa semanal, Veja, e de vários outros tentáculos
midiáticos articulados entre si.
Cotas
são o inferno
Esse
poderosíssimo Leviatã apresenta-se na atual conjuntura como
o sucedâneo do Leviatã hobbesiano. O propósito do monstro
é amedrontar a sociedade repetindo insaciável, incontinenti
e monocordiamente que o Inferno em breve se instalará no Brasil.
Incansavelmente a Rede Globo, a Folha e Veja anunciam que
isso já tem hora e data marcada.
O
Brasil será transformado no reino de Lúcifer a partir do momento
em que deputados e senadores em Brasília votem pela aprovação
de dois projetos que tramitam no Congresso Nacional, um deles
há mais de decênio: o Estatuto da Igualdade Racial (projeto
de lei 6564/05, do senador Paulo Paim, PT), e o projeto de
lei 73/99 (da deputada Nice Lobão, DEM) incorporado ao projeto
de lei 3.627/2004, do governo federal. Ambos estabelecem,
pela primeira vez no país, um sistema de políticas sociais
compensatórias, inclusive de acesso às universidades públicas
federais, como forma de corrigir as profundas desigualdades
repercutidas até hoje pelos mais de 300 anos de escravidão
negra e indígena que marcam a história socioeconômica brasileira.
A
grande mídia simplifica tais políticas compensatórias, rotulando-as
como projeto de cotas "raciais". Isso tem reduzido
a abrangência daquelas proposições e tornado irracional o
debate. A questão de "raça" é posta no primeiro
plano, em uma sociedade que custa a acreditar na existência
do racismo em suas relações cotidianas e institucionais. Um
povo que acredita, a despeito do desmascaramento do mito,
ser o Brasil uma "democracia racial", mercê de todos
os mais respeitáveis dados e índices de medição da estrutura
demográfica afirmarem sempre o contrário. A sociedade brasileira
é cingida por uma forte persistência da herança escravocrata,
que atinge "pretos" e "pardos" (na definição
do IBGE), colocando-os como grupo nas piores posições da pirâmide
sócio-econômica.
Racismo
como ideologia
ão
são os propositores daqueles projetos de lei que inventaram
a noção de "raça" como fator de identidade atribuída
às pessoas de acordo com seus papéis e o lugar social por
elas ocupado na formação da sociedade brasileira.
"Raça"
sempre foi utilizada pelos "senhores da terra",
desde o nascedouro da empreitada colonial nas Américas, como
traço distintivo. Aos africanos, trazidos como escravos para
todos os gêneros de labuta, foi-lhes pregada a definição de
"negros" como marca de um tipo de animal racialmente
inferior aos demais humanos. Não importaram as suas diferenciações
culturais, ou étnicas, tampouco as suas tradições de origem.
Todos são (ou eram) da "raça" negra, consequentemente
podendo ser escravos pelo estatuto do ordenamento jurídico
da Colônia e do Império. O racismo foi uma das ferramentas
ideológicas de organização da exploração colonial. A República
não solucionou, até o presente, essa equação.
Qual
patriota - e a pátria, já disse alguém, é o último refúgio
dos canalhas - quer ver seu país "pegar fogo", ter
a sua "harmoniosa" população "separada"
entre "brancos" (no Brasil identificados como rico
ou doutor) e "negros" (sempre suspeitos e vilões)?
Quem quer ver a "paz" que hoje reina, como antanho,
desde o princípio do escravismo colonial, quem quer todas
essas nossas tradições de cordialidade (no fundo perversas)
perdidas por conta da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial
e do projeto 3.627?
Nessa
tecla batem, de forma orquestrada e combinada, os grandes
conglomerados de mídia. Com seus impressos, telejornais, experts
em antropologia social, rádios, internet, publicações, almejam
influenciar - e muito - os humores e a disposição da opinião
pública, isto é, dos brasileiros formadores de opinião e dos
eleitores.
Sem-precedentes
a não ser no abolicionismo
O
Estatuto e o outro projeto de lei seriam obra demoníaca (ou
stalinista?). Permitir que congressistas tenham o livre-arbítrio
de votar abalizados por razões éticas, de senso de justiça,
de consciência histórica dos horrores que até hoje vigem da
discriminação negativa contra os negros, isto a Rede Globo,
a Folha de S. Paulo e a Veja simplesmente não querem aceitar.
Portanto, mobilizam-se, com poucos precedentes similares nos
debates legislativos, para derrotar aquelas proposições. Reeditam
dessa forma, 130 anos depois, a mesma tipologia das paixões
verificadas durante a árdua luta que resultou na abolição
da escravatura no país.
Todos
os artigos, todas as matérias, todos os editoriais veiculados
direcionam-se a semear o pânico e a disseminar a idéia de
que assim procede a mídia em defesa da unidade e do bem nacionais.
Todas as reportagens ou entrevistas são produzidas e editadas
de forma a referendar essa tese.
O
método é simples e corriqueiro. Para disfarçar o flagrante
desrespeito às regras básicas do jornalismo em sociedades
abertas (deve-se dar voz a todas as opiniões), esses grandes
veículos usam a fórmula 10 para 1. Dão espaço e peso diferenciados
aos que são contrários àqueles projetos e ao demais. Este,
já que favorável, tem a sua opinião, posta no contexto das
outras contrárias, com um enquadramento que remete ao bizarro,
ao fora de propósito. Vira exotismo defender políticas compensatórias
para os descendentes de escravos no Brasil, que são a esmagadora
maioria dos pobres e miseráveis.
Interesses
anti-sociais das empresas
Rede
Globo e seu noticioso carro-chefe, o Jornal Nacional - já
classificado por seu editor como produto dirigido a gente
de mentalidade de Homer Simpson -, Veja e Folha de S.Paulo
querem convencer os formadores de opinião, eleitores e seus
representados no Congresso Nacional de que essas empresas
privadas (ou seja, Globo, Folha e Abril, assim como os seguidores
de tal ideário) defendem nessa campanha o que é melhor para
"o país". No entanto, os formadores de opinião,
e principalmente os atuais detentores de mandatos parlamentares,
deveriam atentar para a seguinte obviedade escamoteada nesse
debate: Rede Globo, Folha e Editora Abril são crias alimentadas
pela última ditadura militar que destruiu a democracia, prendeu,
torturou, matou e fechou, por consequência, esse mesmo Congresso
Nacional. Perseguiu e cassou mandatos de parlamentares e tantos
outros líderes sociais e políticos não-adesistas.
Entre
os sombrios anos 1960 ao ocaso dos anos 1980, a maior parte
do tempo foram conflitantes e até mesmo opostos os interesses
republicanos e os interesses dessa hoje tríplice-aliança.
Essas empresas se fortaleceram, se beneficiaram e se consolidaram,
cada uma ao seu modo, pelas facilitações que o regime militar
lhes proporcionou. Apoiaram abertamente ou foram coniventes
em algumas fases com aquela ditadura.
Sobre
a Globo há vasto corpus documental a respeito, dentro dele
a existência de uma CPI. Carlos Guilherme Mota e Maria Helena
Capelato (1980) registraram em História da Folha de S. Paulo:
1921-1981 a estratégia de posicionamento político que fez
este jornal jamais ter sofrido sequer de leve os abusos ditatoriais
infligidos ao seu concorrente local, O Estado de S.Paulo.
A Editora Abril sempre flertou com a cúpula do sistema, tendo
em Golbery do Couto e Silva um dos seus referenciais de conduta
e em Antonio Carlos Magalhães um dos seus queridinhos.
Dourando
a pílula do comprometimento
A
Folha buscou se redimir, a partir dos tempos de Claudio Abramo
e mais ainda com Boris Casoy, na memorável campanha das Diretas-Já,
que na primeira metade da década de 1980 exigia nas ruas o
retorno ao Estado de Direito, com o estabelecimento de eleições
livres para a Presidência da República. Naquela vez, Folha,
Veja e Globo ficaram em campos diferenciados.
A
vontade da poderosíssima Globo no período todos nós conhecemos.
Se opôs tenazmente a que o povo brasileiro readquirisse a
sua soberania por meio do voto. Ignorou ou mentiu, seguindo
um padrão jornalístico de obediência à linha-dura do regime
à qual serviu o tempo todo com denodo, demonizando os adversários.
Provas
ainda piores de que a Globo, quando quer, é o reino da perversão
dos interesses cidadãos estão nos anais da história brasileira
recente em dois escandalosos episódios. O que ficou conhecido
como "Caso Globo/Proconsult" e o debate final da
campanha eleitoral de 1989, entre Lula e Fernando Collor.
No primeiro, a Globo foi pega de calças curtas na sua ignóbil
tentativa de manipular contra Leonel Brizola o resultado da
eleição para governador do Rio de Janeiro, em 1982. No segundo,
a exibição no Jornal Nacional da edição do debate, beneficiando
a performance de Collor, até hoje é estudada como um case
do histórico de abuso de poder que essa rede televisiva possui.
Nesse
segundo episódio, o então todo-poderoso diretor da Central
Globo de Jornalismo, Armando Nogueira, teve pruridos de hombridade,
foi ao cacique Roberto Marinho e apresentou sua demissão do
cargo. Vemos a confissão envergonhada dele para o teledocumentário
Beyond Citizen Kane (Simon Hartog, 1993), que a Globo judicialmente
censurou, impedindo sua exibição em todo o território brasileiro.
Um
histórico de sujeiras
Esse
documentário (assista
aqui), que circulou em cópias piratas, é um consistente
trabalho jornalístico da TV britânica, mostrando os tentáculos
do império de Roberto Marinho e suas ramificações no comando
do poder político nacional. Permitir a sua difusão à época
seria contrária à estratégia que com o retorno da democracia
a Globo traçou, visando apagar da memória o seu passado macbethiano.
Foi
nesse vácuo, por exemplo, que alguma programação da emissora,
como o Fantástico, até se deu ao luxo de exibir uma reportagem
sobre o nascente Movimento Pelas Reparações dos Afrodescentente,
enfocando o surgimento no Brasil de uma articulação social
por políticas compensatórias de ação afirmativa.
Entretanto,
pruridos iguais ao de Nogueira hoje não possui Ali Kamel.
Este profissional, agora à frente do Jornalismo da TV Globo,
é um dos comandantes do ataque sem trégua ao Estatuto da Igualdade
Racial e ao Projeto de Lei do Executivo. Age de cima de um
armamento pesado de artilharia, muito além do que poderiam
vis mortais, como o autor dessas mal-traçadas linhas, desprovidos
estes do instrumental fabuloso que são os comandos da TV Globo,
da Veja, da Folha de S.Paulo. Nem um desses veículos abre
espaço e tempo equitativos para o exercício de opinião contrária
às suas neste tema. Seus colunistas e articulistas, com raras
exceções de um Elio Gaspari, têm todos não-surpreendentemente
o mesmo ponto de vista de quem lhes paga salários e bônus.
Trapaça
e covardia no debate
ão
há em toda a grande mídia brasileira um único articulista
ou comentarista negro comprometido com a luta anti-racista
contratualmente assegurado para, de forma regular, emitir
sua opinião nesses veículos. Mesmo o limitado espaço da seção
"Tendências/Debates" da página 3 da Folha, ou o
seu suplemento "Mais!", nos últimos oito anos têm
sistematicamente rejeitado colaborações contestadoras à sua
tese. Não faltam pessoas com esse ponto de vista capacitadas
para publicar na Folha, e uma lista de intelectuais comprometidos
na luta por ações afirmativas foi entregue à Secretaria de
Redação desse veículo por uma representação do Movimento Negro
há mais de três anos, em visita àquele jornal. Certamente
a lista foi para o lixo.
Diante
de tão avassaladora campanha "cívica", mentalidades
conservacionistas do establishment sentem-se agora encorajadas
a bradar as suas posições contra as mudanças institucionais
previstas por aqueles dois projetos de lei. Vêem-se estimuladas
essas vozes porque sabem poder contar com a tutela dos grandes
veículos de comunicação. Não temem, neste momento, a reação
adversa das ruas. Porque as ruas estão desmobilizadas pela
insuficiência das forças sociais que, sabedoras da justeza
política das ações compensatórias aos estratos sempre excluídos
(por razões históricas), acham-se órfãs do poder belicoso
dos que possuem o controle da grande mídia.
Ouso
dizer que por trás de todo esse poder esconde-se a prepotência
dos covardes. Em breve eles também pressionarão os integrantes
do Supremo Tribunal Federal, quando a matéria for ali analisada.
É
esta covardia da Globo, da Veja e da Folha que interdita o
nosso acesso equânime aos seus tempos e espaços. Ali Kamel
jamais nos convidaria para um debate desarmado, ainda que
em ambiente por ele dominado, em qualquer um dos seus jornalísticos
ou talk shows cuja edição seja honesta. Otavio Frias Filho,
para cujo jornal muitas vezes no passado escrevi, tendo dois
textos meus reeditados em coletâneas organizadas pela Publifolha
- e a partir dos quais produzi minha tese de doutorado - não
me ofereceria em sua Folha um lugar de articulista frequente
em contraponto ao seu pensamento. E Veja, para estampar uma
"página-amarela" que fosse, somente se eu "revelasse"
que Lúcifer não existe no além, Lúcifer é a "alcunha"
de Luiz Inácio Lula da Silva.
Como
as coisas assim não se darão, ou os defensores e interessados
pela democratização verdadeira das relações sociais no Brasil
retomam aguerridamente a sua militância, pressionam os parlamentares,
ganham as ruas e outros espaços de cidadania; ou, então...
adeus às mudanças.
P.S.
-
Uma nota adicional. Comecei a redigir este artigo em Madri,
Espanha. Estou na Europa há oito meses como bolsista de pós-doutorado
da Capes no Lateinamerika Institut da Freie Universität Berlim,
verificando a presença e influência do geógrafo Milton Santos
no debate intelectual em países europeus, subsídio para escrever
a biografia autorizada dele. Dia desses tive de me deslocar
em ônibus para Salamanca. Ao desembarcar na estação, à porta
do veículo vieram me recepcionar três homens que se identificaram
como agentes da polícia local. Eu era o único negro entre
os demais passageiros e não estava chegando ao país naquele
momento. Fui o único detido e submetido aos olhares suspeitosos
dos demais.
Não
se tratava de agentes da Imigração. Eram policiais comuns
à paisana, que me levaram a um cubículo, me retiraram os documentos
e remexeram minha mochila, cheia de livros - para a surpresa
confessa deles - e folhearam meu passaporte com comentários
jocosos sobre o número de viagens marcado por vários vistos
ali apostos. Telefonaram para sei lá quem, ditando meus nome
e sobrenome. Depois do vexame e do constrangimento, permitiram
que eu fosse encontrar com um acadêmico da universidade local,
estudioso da obra do brasileiro. A essa altura eu já tinha
perdido meu humor.
Registro
aqui o fato para ilustrar uma simples verdade, que se tenta
escamotear: é muito fácil, para os prepostos do poder (público
ou privado) saber quem é negro. Afirmo em resposta à questão
bizantina levantada pelos inimigos das cotas. No Brasil, episódios
como esse são banais. Na Europa frequentemente ocorrem. A
cor da pele subsiste como valor de distinção, de discriminação
e preconceito. Gostemos ou não, esses são os fatos. |