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01/10/09
O
Estatuto da Igualdade Racial, que foi provado
pela Câmara dos Deputados no último dia 9 (quarta-feira),
após 10 anos de discussão, divide a opinião de especialistas
e movimentos sociais sobre os avanços trazidos pela lei aos
quilombolas.
Um dos
pontos de conflito tem como causa o fato de os deputados terem
rejeitado dispositivos do projeto original que garantiam a
demarcação dos territórios dessas populações e previam a autodeclaração
como critério para o reconhecimento de um indivíduo como negro
ou quilombola.
Sobre
essa e outras questões, o ministro da Secretaria Especial
de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Edson
Santos, e o especialista Flávio Bassi,
da organização social Ocareté, concederam
uma entrevista para Fabíola Munhoz, publicada
por amazonia.org.br,
28/09/2009.
Eis
a entrevista:
O
fato de os deputados federais terem rejeitado dispositivos
do projeto de Estatuto da Igualdade Racial que diziam respeito
à demarcação de territórios dos quilombolas foi uma perda
para essa população?
Edson
Santos - O Estatuto aponta diretrizes para a evolução
do Brasil no rumo da igualdade racial. Ele caminha no âmbito
da consolidação ou da regulamentação. Optamos por fazer referência
ao dispositivo constitucional que fala de quilombos. Primeiro,
frisamos que as comunidades quilombolas têm direito à terra
e que é responsabilidade do Estado prover as comunidades do
acesso à terra. Outro ponto é que, como são comunidades rurais,
precisa haver também assistência técnica que atenda as comunidades
quilombolas naquilo que for necessário do ponto de vista da
sustentabilidade a sua presença no trabalho rural.
Flávio
Bassi - Para os quilombolas, foi um retrocesso. O
Estatuto apenas repete o que já dizem a Constituição Federal
e outros decretos, como o 4.887/03, que são normas muito mais
efetivas. Isso fragilizou, expôs o movimento quilombola e
também manteve o retrocesso de que a luta quilombola é sempre
vista como um entrave aos proprietários rurais e a conquistas
da população negra. Afinal, a questão dos quilombolas foi
vista como algo negociável para a aprovação do Estatuto.
O
fato de a norma sugerir políticas, sem obrigar os governantes,
pode fazer com que a lei seja ineficaz?
Santos
- As pessoas devem ver o estatuto com olhar mais amplo. Na
verdade ele estabelece diretrizes para o Estado atuar no campo
da promoção da igualdade racial e foi um documento pactuado
dentro do governo federal, e diversos órgãos do governo se
posicionaram sobre o conteúdo no âmbito de saúde, educação,
direito da juventude e acesso ao trabalho. Todas essas questões
são tratadas e estão em consonância com o pensamento do governo
federal. Ele não é coercitivo, nem deveria ser. Ele fixa caminhos
para que o poder público possa se pautar no âmbito da promoção
da igualdade racial.
Bassi
- O estatuto aprovado não tem caráter determinativo, mas sim,
autorizativo. Isso significa que a norma não vai obrigar os
gestores a cumprir o seu conteúdo, mas apenas sugerir políticas.
Isso faz com que a lei tenha pouca força legal, e seja um
avanço simbólico.
A
não-previsão de um fundo que reúna recursos para a execução
das políticas recomendadas pelo estatuto põe em risco a efetividade
da norma?
Santos
- O estatuto não fixa recursos. Essa questão é um debate que
tem que haver. Nós criamos neste ano o Plano Nacional
de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR), que detalha
mais o compromisso do governo federal com as políticas de
promoção da igualdade racial, e isso vai se refletir na lei
de diretrizes orçamentárias e, finalmente, na lei orçamentária.
A
PNPIR é transversal. O Ministério da Saúde fixou 14 milhões
para construir um programa voltado à saúde da população negra.
O Ministério da Educação tem o plano nacional de implementação
da lei 10.639 - que regulamenta a história da África e a revisão
da historia do Brasil inserindo o negro no processo de formação
do Estado brasileiro. Isso envolve recursos para a formação
de profissionais de ensino e construção de bibliografia.
Junto
ao Ministério do Trabalho, temos um plano de qualificação,
que tem como meta qualificar 20 mil jovens em todo o Brasil.
A PNPIR está colocada em cada órgão do governo, e os valores
poderão ser quantificados com a somatória dos recursos de
todas essas políticas, além do orçamento da SEPPIR.
Bassi
- É fundamental que qualquer texto que seja aprovado
tenha o instrumento para garantir a previsão orçamentária
daquilo e que aquele recurso vai ser desembolsado e monitorado.
É obrigatório pelas regras de administração pública do Estado
você ter já previsto como vai garantir os recursos para as
leis que você cria.
Além
disso, embora a aprovação do Plano Nacional de Promoção da
Igualdade Racial (PNPIR) tenha sido rápida, e isso é favorável,
o plano não vai garantir a realização das políticas contra
o preconceito de raça. É necessário que as organizações sociais
negras e quilombolas fiscalizem a aplicação do dinheiro reservado
às políticas de promoção da igualdade racial. O Programa
Brasil Quilombola, por exemplo, tem previsão orçamentária
enorme, mas os recursos não foram aplicados como deveriam.
É interessante as organizações monitorarem esse orçamento
para as políticas saírem do estatuto.
O
estatuto prevê critérios segundo os quais as pessoas poderão
ser reconhecidas como quilombolas e negros?
Santos
- Isso não está escrito, mas é uma postura do governo não
atropelar as comunidades quilombolas, impondo-lhes uma cultura
que não é a delas. Isso dentro da compreensão de democracia
do nosso governo.
Bassi
- Um artigo do início do Estatuto, nas disposições
preliminares, considera negros e pardos como negros, segundo
o critério utilizado pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística]. Mas, a última PNAD [Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios] mostrou que a população que se autodeclara
negra é menor do que o número de pessoas que se consideram
pardos. Parece que as disposições preliminares do Estatuto
que foi aprovado são um pressuposto da lei, mas isso não é
verdade. A lei não diz que a autodeterminação é um direito.
Com
isso, vai ter Estados onde haverá avanços e outros não. Para
não depender dessa variação de acordo com o modo como as pessoas
definem características de identidade, é preciso que o Estado
garanta efetivamente o direito à autodeterminação de qualquer
grupo étnico ou social no Brasil. Há pessoas que discordam
da previsão de que as pessoas se autodeclarem negras ou quilombolas,
pensando que isso daria margem para fraudes. Mas, por mais
que seja difícil de definir quem são os quilombolas e os negros,
essa questão não pode ser negociada. É fácil para qualquer
organização reivindicar direitos de igualdade racial, mas
como isso será colocado em prática?
Qual
a sua avaliação sobre o Estatuto aprovado na Câmara após sofrer
alterações no seu texto original por parte dos parlamentares?
Santos
- O Estatuto corresponde à realidade atual. Ele corresponde
ao estágio atual da nossa caminhada. O Brasil ainda tem muita
desigualdade. Então é preciso que nos utilizemos do estatuto
como um instrumento para a redução da desigualdade no país.
O Estatuto atende a essa finalidade.
Bassi
- A forma como foram feitos os debates sobre o Estatuto, a
exemplo da 2ª Conferência Nacional de Promoção da
Igualdade Racial (Conapir) foi favorável, mas a lei
foi um avanço paliativo. Positivo é o processo, não o texto,
que não dá conta das especificidades quilombolas, e ainda
complica muitas questões que dizem respeito a esses povos,
que já estavam previstas em outras normas. Para outros pontos,
que dizem respeito à igualdade racial em geral, o Estatuto
é uma consolidação de normas, um avanço com a força simbólica
de congregar artigos para enfrentar a desigualdade racial.
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