| Em
12/03/10
Por
Luciana Araujo
O
Supremo Tribunal Federal reacendeu a discussão sobre a justeza
da reserva de vagas nas universidades brasileiras para estudantes
negros, afrodescendentes ou indígenas - as chamadas cotas
raciais – ao realizar, na primeira semana deste mês, audiência
pública prévia ao julgamento da ação impetrada pelo DEM contra
a Universidade de Brasília.
O
evento serviu ao menos para por a nu as reais motivações e
objetivos dos DEMOcratas (ex-Arena e ex-PFL). Especialmente
esclarecedora foi a declaração do senador Demóstenes Torres,
digna de um senhor de engenho. Para ele, as políticas de reparação
não se justificam porque a “exportação” de pessoas para o
mercado negreiro teria incentivado a economia africana – logo
a escravidão seria responsabilidade dos negros. O senador
goiano foi além e acusou as mulheres escravizadas de serem
coniventes e permissivas com os estupros sofridos.
A
advogada dos DEMOcratas, Roberta Kauffmann, ex-pupila do presidente
do STF, o ministro Gilmar Mendes – que foi seu orientador
durante o mestrado sobre as políticas afirmativas na universidade
brasileira - alegou ainda que não se pode estabelecer um processo
de “racialização do país, com a segregação de direitos com
base na cor da pele”.
A
postura dos dois senhores acima mencionados evidencia o grau
de reacionarismo e o forte racismo ainda arraigado na sociedade
brasileira. É o que explica porque, mais de um século após
o 13 de maio de 1888, no Brasil ainda se contrata pessoas
pelo critério da “boa aparência”. Ou porque os negros recebem
até 90% menos que os trabalhadores brancos para desenvolver
a mesma função e são 73% dos 10% mais pobres do país. Ou,
ainda, porque um jovem negro em nosso país tem quatro vezes
mais chances de morrer assassinado que um menino branco. E
porque nas universidades públicas brasileiras apenas 23% dos
estudantes são negros (na USP, esse percentual cai para 2%).
Os
dados jogam por terra o mito da “democracia racial”. Basta
voltar os olhos para as favelas e periferias de nosso país
– carentes de quaisquer políticas de garantia de infra-estrutura
e onde o único braço do Estado que chega é o da repressão
- para perceber que a pobreza no Brasil tem cor.
Essa
realidade é resultado dos 358 anos de regime escravocrata
no país e pela forma como se deu a abolição até hoje inconclusa.
No longínquo 13 de maio, milhares de homens, mulheres, jovens
e crianças foram jogados à própria sorte como se o Estado
não tivesse nenhuma responsabilidade pelo fato deles terem
sido seqüestrados de sua terra natal e mantidos confinados
como animais durante quase meio século.
O
descompromisso histórico do Estado brasileiro com os negros
e as negras no país é também uma forma de perpetuação do preconceito
e do racismo. Desde os tempos do regime escravista, direitos
básicos são negados aos negros – assim como aos indígenas
– em nosso país. É responsabilidade desse Estado reparar a
distinção incentivada e patrocinada pelas instituições que
fundaram as bases sócio-econômicas e políticas de nosso país.
As
ações afirmativas por si só não asseguram o fim da descriminação
racial, mas são um elemento concreto de reconhecimento da
responsabilidade do Estado pela realidade em que vivemos.
O racismo continuará existindo enquanto vivermos sob a égide
do capital – que a tudo mercantiliza e se utiliza da opressão,
especialmente de gênero e etnia – para legitimar a propriedade
e potencializar os lucros de uns poucos ao custo das vidas
de milhares. É um subproduto e uma necessidade do capital.
Mas
essa realidade não anula o fato de que é devida a nós negros
a reparação pela chaga escravista de quase quatro séculos
da história brasileira. Enquanto isso não ocorrer, o “não
racismo” nacional continuará reservando aos negros a triste
representação recentemente exibida na novela ‘Viver a Vida’,
da Rede Globo. Na trama, uma mulher negra até galgou o posto
de protagonista, mas o enredo a fez submeter-se a ajoelhar
diante de outra mulher, branca, para receber uma bofetada
e ainda pedir desculpas.
Não
foi à toa também que o Estatuto da Igualdade Racial recentemente
aprovado no Congresso Nacional foi mitigado, retirando-se
do texto as reivindicações mais profundas dos movimentos sociais
que lutam contra o racismo.
E
também não é uma coincidência que foram os mesmos DEMOcratas
que pediram a instauração da CPMI no Congresso Nacional para
criminalizar o MST. Esses são exemplos da ação organizada
da burguesia brasileira, de uma elite branca e racista que
controla o país e impõe, pela via da força quando necessário,
sua visão de mundo. E, a julgar pela composição da mais alta
corte do país – que ao longo de seus 120 anos de existência
sempre atendeu aos anseios da elite que a instituiu – o processo
de reparação pelos efeitos da escravidão está ameaçado de
um novo retrocesso.
É
fundamental a ampliação deste debate para o conjunto da sociedade
brasileira e a organização de uma grande campanha em defesa
das cotas raciais, bem como para que sejam assegurados os
investimentos necessários à ampliação de vagas nas instituições
públicas de ensino superior, para efetivar o direito de ingresso
de filhos da classe trabalhadora nas universidades brasileiras.
As cotas não são uma benesse do Estado aos negros e indígenas,
mas o início do pagamento de uma dívida que já dura 510 anos.
Luciana Araujo é jornalista
www.carosamigos.com.br
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