| Em
09/03/10
Por Jorge Américo
Apesar
de ter sido criado dois anos após a abolição da escravidão
no Brasil, foi preciso mais 120 anos para que o Supremo Tribunal
Federal percebesse que a Lei Áurea não garantiu a liberdade
de fato dos negros. Durante três dias, entre 3 e 5 de março,
milhões de brasileiros acompanharam com atenção e revolta
os debates da Audiência Pública convocada pelo ministro Ricardo
Lewandovisk, relator das ações da Confederação Nacional dos
Estabelecimentos de Ensino (Confenem) e do partido Democratas
(DEM). Na pauta, a discussão sobre a constitucionalidade das
cotas, um dos temas mais caros ao movimento negro e organizações
sociais combativas.
“Para
reafirmar o nosso posicionamento em ralação ao debate de combate
ao racismo e na discussão da luta de classes, enviamos três
representantes para participar da audiência. Os movimentos
de luta têm a difícil missão de concentrar todas as suas forças
para fazer pressões capazes de convencer os ministros do STF
de que a adoção da política de cotas é o caminho mais viável
para a reparação das injustiças sofridas pela população historicamente
oprimida, diz Heber Fagundes, do Conselho Geral da Uneafro.
A
estratégia utilizada pelos opositores ficou centrada na negação
do racismo no Brasil e no perigo de incitação ao ódio racial.
O debate foi marcado por momentos de tensão e revolta, sobretudo
após o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM).
Isso se deu porque o parlamentar tentou responsabilizar os
africanos pela escravização dos negros, que perdurou por 350
anos no Brasil. "Os próprios negros seqüestravam seus
compatriotas[...] há registros de que muitos alforriados eram
proprietários de escravos".
No
intervalo da audiência, parte da militância se mobilizou para
produzir uma carta de repudio à declaração do senador na qual
afirmou que a violência sexual sofrida pelas mulheres negras
durante a escravidão não teria se configurado como casos de
estupro, mas como "relações consensuais". Com sutileza,
no dia seguinte, a Ministra Cármen Lúcia indagou a um pró-reitor
universitário se existiam estatísticas sobre a presença de
mulheres negras na universidade. “Sinto o peso do preconceito
por ser mulher e imagino que as mulheres negras devem sofrer
dobrado”, declarou.
“Durante
os três dias de debate presenciamos o racismo institucional,
seja na hostilidade de alguns funcionários, seja na estratégia
do cerimonial em manter os representantes das organizações
sociais em um espaço separado daquele onde eram realizadas
as intervenções dos debatedores”, comenta Sérgio Caetano,
da UNEafro. O público só pôde acompanhar o debate presencialmente
após uma representante das religiões afro-brasileiras ter
sido barrada por seguranças, o que gerou uma tensão no saguão
do auditório.
Antes
do anúncio do julgamento que decidirá o futuro das cotas e
dos negros, o ministro Lewandovisk deverá elaborar um relatório,
que servirá de orientação ao voto dos demais magistrados.
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