| Em
25/03/10
Por Mariana Martins – Observatório do Direito à Comunicação
A
negativa do jornal O Globo, no início do mês, em publicar
uma peça publicitária da Campanha Afirme-se em defesa das
ações afirmativas relacionadas à questão racial recoloca de
forma explícita um importante debate acerca do direito à comunicação.
O episódio estabelece uma situação de fato em que liberdade
de expressão é confundida com liberdade comercial das empresas
privadas de comunicação. A publicação, mais antigo veículo
do maior grupo de comunicação do país, alega possuir uma política
comercial específica para o que chama “peças de opinião” e,
por esta razão, teria mais que decuplicado o valor a ser cobrado
pela veiculação do anúncio ao tomar conhecimento de que se
tratava de uma campanha pró cotas.
O
pesquisador sênior da Universidade de Brasília Venício A.
de Lima diz que este é um caso que merece ser observado a
partir das diferenças entre liberdade de imprensa e liberdade
de expressão. A primeira, na opinião do professor, está relacionada
à proteção dos interesses daqueles responsáveis pelos veículos
de comunicação e não deve ser confundida com a segunda, que
é um direito humano e, no Brasil, constitucionalmente positivado.
Lima pondera que a liberdade de expressão, no atual contexto
das práticas de comunicação, depende da inserção de opiniões
diversas nos grandes veículos de massa. Estes, portanto, precisariam
refletir não só a opinião dos seus donos.
No
caso da não publicação do anúncio da Afirme-se, o que está
colocado é, justamente, a utilização de uma política comercial,
justificada supostamente pelo princípio da liberdade de imprensa,
para restringir o direito da campanha publicizar sua opinião
a favor das ações afirmativas e o direito dos cidadãos de
receberem informação sobre o tema desde uma perspectiva diversa
da dos veículos das Organizações Globo. Segundo Lima, na página
de O Globo na internet, o jornal apresenta a tabela de preços
comerciais e nela está escrito que a empresa cobra de 30%
a 70% a mais em anúncios de conteúdo opinativo. Contudo, no
caso em questão, o valor variou em aproximadamente 1300%.
Curiosamente,
a tentativa da Campanha Afirme-se publicar o anúncio está
intimamente relacionada ao fato de os grupos a favor das ações
afirmativas perceberem que não conseguiam espaço editorial,
ou seja, na cobertura jornalística regular para apresentar
seu ponto de vista. Assim, por ocasião da audiência pública
no Supremo Tribunal Federal (STF) que discutiria entre os
dias 3, 4 e 5 de março duas ações de inconstitucionalidade
movidas contra a criação de cotas nas universidades públicas
para descendentes de negros e indígenas, a campanha resolveu
fazer intervenções publicitárias em jornais de grande circulação
nacional em defesa da constitucionalidade das leis que estão
em vigor.
A
intervenção publicitária produzida pela agência Propeg, que
também é parceira da campanha, contava basicamente com três
produtos: um manifesto ilustrado que seria publicado em jornais
considerados formadores de opinião pelos organizadores da
Afirme-se, um spot de rádio e um uma vinheta, que estão disponíveis
no blog da campanha. De acordo com Fernando Conceição, um
dos coordenadores da Afirme-se, as doações das entidades que
fazem parte da campanha e a captação de recursos com outras
organizações foram suficientes para pagar a publicação do
manifesto em quatro jornais de grande circulação – O Estado
de S. Paulo, Folha de S. Paulo, A Tarde (BA) e O Globo (RJ).
“Nós resolvemos comprar especificamente nesses veículos porque
eles já vêm fazendo campanhas sistemáticas contra as cotas
há tempos. Como nós temos outra visão e não encontramos lugar
livremente para expor um outro ponto de vista, resolvemos
comprar o espaço”, explica Conceição.
Como
é de praxe nas campanhas publicitárias, a agência responsável
passou a negociar o preço do anúncio de uma página inteira
a ser publicado no dia 3 de março com os veículos selecionados.
Por se tratarem de anúncios ligados a Organizações Não Governamentais,
os preços acordados ficaram em torno de R$ 50 mil. O valor
exato negociado com O Globo foi orçado em R$ 54.163,20.
Valor
impraticável
Fechados
os valores, a agência enviou a arte ao jornais. Dois dias
antes da campanha ser publicada, a coordenação da campanha
Afirme-se foi comunicada pela agência Propeg que o anúncio
havia sido submetido à direção editorial de O Globo e que
os responsáveis julgaram que a peça era “expressão de opinião”.
O jornal dizia que, sendo assim, o valor deixava de ser negociado
anteriormente e passava para R$ 712.608,00. “Um valor irreal,
impraticável até para anuncio de multinacional”, queixa-se
o coordenador da campanha.
Procurado
pela equipe do Observatório do Direito à Comunicação, o jornal
O Globo não respondeu aos pedidos de entrevista. No entanto,
o diretor comercial da publicação, Mario Rigon, concedeu entrevista
ao portal Comunique-se ao qual disse que considerou a peça
da campanha como “expressão de opinião” e diante disso, “seguiu
a política da empresa, que determina um valor superior para
esse tipo de anúncio”. “De fato vimos que se tratava de uma
expressão de opinião, mas não nos cabe julgar o mérito da
causa. É a nossa política comercial, tratamos assim qualquer
anunciante que queira expressar sua opinião”, disse Rigon
ao portal.
Este
Observatório também buscou consultar o Conselho de Autorregulamentação
Publicitária (Conar). Por intermédio da assessoria de imprensa,
o conselho adiantou que não tem posição sobre o caso, visto
que foge do escopo da entidade se posicionar sobre a política
comercial dos veículos. “Nós não nos posicionamos sobre regulação
de mídia exterior, atuamos exclusivamente sobre o conteúdo
das mensagens publicitárias”, disse Eduardo Correia, assessor
de Imprensa do Conar. O assessor falou ainda que a entidade
precisa ser provocada por processos para se posicionar sobre
o conteúdo de uma peça e que nas questões de política comercial
das empresas eles não devem opinar.
Ainda
analisando o caso, o pesquisador Venício Lima lembra que,
diante da falta de regulamentação da mídia no Brasil, as empresas
privadas, na maioria das vezes, podem agir como bem entendem
e praticar os preços que lhes convêm. Lima acredita ainda
que seja provável que O Globo esteja, a partir da lógica comercial,
protegido legalmente para fazer esse tipo de cobrança, o que
é apenas “um lado da moeda”.
É
fato que a liberdade comercial baseia-se na lógica de que
as normas podem ser estabelecidas pelas próprias empresas
e que, portanto, podem causar distorções quando estas se cruzam
com questões editoriais. No caso em questão, fica evidente
a falta de transparência quanto aos critérios adotados por
O Globo para considerar o anúncio como conteúdo opinativo
e aplicar um valor diferenciado. Os outros três jornais que
publicaram a peça publicitária não tiveram a mesma compreensão
e a tabela aplicada foi a de anúncio publicitário comum.
A
Afirme-se move uma ação contra O Globo no Ministério Público
do Rio de Janeiro por conta do episódio. A campanha pede que,
com base no que diz a Constituição Federal com relação à liberdade
de expressão, o jornal seja obrigado a publicar o anúncio
por um valor simbólico.
Fernando
Conceição defende que a atitude de O Globo foi claramente
de abuso de poder econômico e que se configura como dumping,
prática condenada pelo próprio mercado. “Foi uma maneira que
a direção de O Globo encontrou para cercear o direito constitucional
que é a liberdade de expressão por meio do abuso do poder
econômico”, denuncia Conceição.
Anticotas
Pesa
ainda contra as Organizações Globo como um todo uma constante
militância contra as ações afirmativas relativas à questão
racial, dentre elas as políticas de cotas para negras e negros
nas universidades públicas. Esta militância é liderada inclusive
pelo atual diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel.
Kamel é autor do livro “Não somos racistas: uma reação aos
que querem nos transformar numa nação bicolor”, que nega a
existência do racismo e, portanto, da necessidade de políticas
reparadoras.
Pesquisa
do Observatório Brasileiro de Mídia, citada por Venicio Lima,
revela que grandes revistas e jornais brasileiros apresentam
posicionamento contrário aos principais pontos da agenda de
interesse da população afrodescendente – ações afirmativas,
cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras
quilombolas. A pesquisa analisou 972 matérias publicadas nos
jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e
121 nas revistas semanais Veja, Época e Isto É – 1093 matérias,
no total – ao longo de oito anos.
Lima
chama a atenção para o fato de a cobertura de O Globo merecer
um comentário à parte na pesquisa. Dentre os três jornais
pesquisados, foi aquele que mais editoriais publicou sobre
o tema, mantendo inalterados, ao longo dos anos, argumentos
que se mostraram falaciosos, como o de que as cotas e ações
afirmativas iriam promover racismo e de que os alunos cotistas
iriam baixar o nível dos cursos.
Lembrando
destes dados da pesquisa, Lima acredita que O Globo estabeleceu
uma barreira comercial e que, do ponto de vista legal, eles
podem estar cobertos pelos princípios da livre iniciativa.
“Mas, esta conduta, tendo em vista o conteúdo que deixou de
ser publicado, infringe o direito à informação. A questão
que fica para o Ministério Público do Rio de Janeiro é legal.
Cabe a eles encontrarem alguma forma jurídica de pensar o
caso sob o ponto de vista do direito à informação. Para mim,
essa postura deixa as Organizações Globo numa situação difícil
para posteriormente falar de liberdade de expressão”, conclui
o professor.
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