Em
14/05/10
"Praça
Matriarca Dandara, local onde os passos apressados ouvem a
Denúncia". Quem passou pelo Centro de São
Paulo, na quinta-feira, 13 de Maio, percebeu algo diferente
no ritmo apressado e atmosfera individualista que permeia
a capital paulista. Desde cedo, dezenas de jovens distribuíam
panfletos relacionados à Aula Pública prevista para acontecer
na Praça do Patriarca. Os estudantes eram membros das entidades
organizadoras da Aula e junto a eles vários meninos e meninas
de rua ajudavam na tarefa de convidar as pessoas para o evento.
ATO
POLÍTICO
Aos
poucos o local foi ganhando cores, bandeiras, faixas e novos
sons. Uma enorme tenda foi montada bem ao lado da estátua
de José Bonifácio de Andrade e Silva, chamado de o Patriarca
da Independência. Na tenda, representantes de vários movimentos
sociais e entidades de luta por direitos humanos expunham
jornais, livros e artigos sobre os temas "Genocídio
da Juventude Negra", "Violência Racial", "Cotas
em Universidades", "Reforma Agrária", "Moradia",
"Fim da Faxina Étnica", "Cursinhos Comunitários"
,entre tantos.
Entre
12h e 14h, ao mesmo tempo que os organizadores argumentavam
com a policiais da Guarda Municipal sobre a importância daquele
do evento, o público que estava em horário de almoço começou
a se aproximar do pequeno tablado montado no centro da praça.
Um funcionário de banco chegou próximo e perguntou, equivocadamente:
"que show vai rolar?"
O Centro da Capital é frio e afasta as pessoas. Atividades
como esta, alteram a noção de obviedade. "Que
povo é esse que vai falar de política em plena tarde de um
dia útil?". Frases como esta surgiram estampadas
no semblante de quem passava.
Os
grupos ativistas revezaram-se ao microfone e davam seus recados
de indignação e denúncia. Afinal, o que significa(ou) a data
de 13 de Maio de 1888(2010)?
Que Abolição é essa que é ensinada nas escolas?
E como diz o panfleto como o nome da Aula Pública: Por que
motivos temos "Mais um Maio sem Abolição"?
ATO
CULTURAL
"A
consciência dos homens daqui é o medo dos homens de lá",
diz o verso da canção cantada por um dos artistas convidados,
que embalou o pessoal ao som de Regaee e MPB.
Passavam das três da tarde: "Trem sujo da
Leopoldina, correndo, correndo, parece dizer tem gente com
fome, tem gente com fome...” recitou o senhor
negro de cabelos grisalhos. Alguém chega próximo, o abraça
e o apresenta: "Gente, aqui está o nosso
querido Liberto Trindade, filho do poeta Solano Trindade!"
Muitos aplausos. Naquele singelo minuto, muitas
histórias se misturaram no encontro de gerações. E Liberto
continuou no ato, fazendo outras belas intervenções, até a
noitinha.
"A
negrada de 78, não podia se reunir assim. Era tempo de ditadura
militar! Mas a teimosia fez nascer o Movimento Negro Unificado,
e a gente lutava e continua lutando, agora unidos aos mais
jovens". A voz experiente era de Miltão
Barbosa, líder do MNU.
Então,
muito mais gente foi se juntado. Ao longo do dia, esgotaram-se
os panfletos. Teriam os movimentos falado com quantos trabalhadores
na praça? Sabe-se lá, 15 mil, 20 mil? Talvez mais. Afinal,
muitos ficam 5 minutos e ouvem o recado de uma entidade. Outros
passam, dão uma 'enforcada' no serviço, ficam meia hora e
acompanham uma denúncia, uma fala emocionada, como muitas
das falas dos presentes.
DENÚNCIA
Com
fotos e cartazes contando a histórias de seus filhos, netos,
sobrinhos, os familiares de vítimas do Genocídio Negro, assassinados
pelo polícia e grupos de extermínio, participaram do ato,
fazendo de sua dor, consciência. Fazendo de seu luto, a sua
luta. Tornando essa luta, coletiva, pelo desarquivamento dos
processos dos crimes de Maio de 2006 e pela Federalização
prevista na Constituição, dos referidos crimes. Dos quase
500 jovens mortos naquela ocasião, mais de 80% são negros.
Presentes
no ato, os familiares de Eduardo Luís Pinheiro dos Santos
e Alexandre Santos, dois jovens motoboys negros, mortos por
policiais militares em São Paulo sabem que nada diminuirá
suas dores. A todos nós fica o compromisso de cobrar uma resposta
ao ofício protocolado com o Governador de São Paulo, Alberto
Goldman, pedindo explicações pela onda de crimes raciais cometidos
por policiais.
POESIA
E LUTA
Poesia,
Poesia, Poesia de Sérgio Vaz e seus convidados dos Saraus,
da literatura do povo, foi assim que aquela tarde de outono
com sol de inverno deu lugar à noite de clima agradável. Clima
mesclado de sentimentos distintos. Encatamento com a dança
afro, choro com o depoimento das Mães de Maio, vibração com
as palavras de ordem. "Se hoje estou aqui, eu à Dandara,
eu devo à Zumbi", "Eu, sou lutador, lutadora, da
classe trabalhadora, minha guerreira é Dandara, o meu guerreiro
é Zumbi!" Muitos meninos de rua queriam agitar bandeiras,
talvez iludidos com a proximidade da Copa, gritavam "Brasil"!
Gritavam livres, sentindo-se livres por alguns instantes.
De pé no chão, acolhidos, sem saber ao certo o que era tudo
aquilo ali. Mais tarde, a vida na rua voltaria ao normal.
E
muitos oradores traziam ao microfone um pouco da sua luta.
Representantes do Movimento Sem Terra, do Sujeito Coletivo,
do Circulo Palmarino, da UNEGRO, do Núcleo de Consciência
Negra da USP, da UNEafro, do Fórum das Famílias de Desaparecidos
Políticos, da Conlutas, de Partidos Políticos presentes como
PSTU, PT, PSOL, PCdoB, dos Parlamentares Ivan Valente, José
Cândido, Raul Marcelo e Vicente Cândido também presentes.
Outras
lutas atuais se somaram à luta anti-racista, como foi o caso
das mulheres presentes no ato em protesto contra o machismo
e a exploração de gênero e os professores da rede pública,
presentes em caravana para denunciar incansavelmente o abandono
da educação pública em São Paulo.
"Vejo
essa praça e me recordo dos anos 50 e 60, quando os jovens
reuniam-se aqui para tratar de política e expor uns aos outros
seus sonhos e seu idealismo". Assim disse
Plínio Arruda, ex-deputado federal constituinte e pré-candidato
à Presidência da República. "Eu continuo
com esse idealismo e espero que vocês não deixem nunca de
sonhar com um país socialista".
REBATISMO
Momento
alto do ato, houve o rebatismo da Praça, que para os movimentos
agora chama-se "Praça Matriarca Dandara",
quando o som de atabaques cativou o público para colocarem
uma bandeira com as cores da unidade africana e uma placa
de papelão no pescoço da estátua do Patriarca.
Uma
senhora que passava, perguntou: "Por que isso? Matriarca
Dandara?".
É melhor que cada pessoa tenha sua resposta. Enfim, o que
é o Patriarcalismo? Quem foi Dandara?
"Muitas são as formas de se explicar o novo
nome dessa praça", disse uma representante
dos movimentos.
AULA
PÚBLICA
Por
volta de 18:15h, depois de mais poesia e dança, o primeiro
convidado da Aula Pública tomou a palavra. Edy Rock, do grupo
Racionais MC´s. "Negro drama, entre o sucesso
e a lama, dinheiro, problemas, inveja, luxo, fama. Negro drama,
cabelo crespo e a pele escura, a ferida, a chaga, a procura
da cura. Negro drama, tenta ver e não vê nada, a não ser uma
estrela, longe meio ofuscada..." cantou
a conhecida música de Rap e solidarizou-se com os movimentos.
E
a Aula continuou com as palavras entusiasmadas da professora
Regina Lúcia, do MNU, que invocou o nome de dezenas de lutadores
negros e lutadoras negras, ao som de "presente"
a cada nome chamado! "Essa luta é de
todos, de todo o Brasil, dos negros e dos brancos! Disse emocionada."
O
Juiz Marcus Orione Gonçalves, que é professor de Direito na
USP, foi o terceiro convidado da Aula. "Se
vocês seguirem por aquela rua ali na esquina, há pouco mais
de duzentos metros, vocês verão a faculdade que eu leciono.
Infelizmente, lá é um outro país e os estudantes de lá são
todos branquinhos. Aquele espaço de poder terá que ser tomado
por nós, através das cotas". E encerrou
a participação com um abraço em Liberto Trindade.
"Nós
precisamos ouvir o que dizem os estudantes negros que entraram
nas universidades por cotas. Nas palavras deles, nós encontramos
a verdadeira avaliação das ações afirmativas".
Assim expressou-se o professor Bas´ilele Malomalo, nascido
no Congo e radicado no Brasil há 20 anos. Ele, que tem mestrado
pela Unesp com tema 'diáspora africana', citou trechos da
audiência sobre cotas ocorrida no STF em Março.
Com
o ato político cultural preparado por mais de 30 entidades
e movimentos populares, o dia 13 de Maio ganhou novo significado.
Além de ser o dia de denúncia contra o racismo, é também um
dia de luta, um dia de protesto, um dia de mobilização!
"Em
breve nos vemos novamente, na Praça Matriarca Dandara, local
onde os passos apressados ouvem a Denúncia!"
>
Veja as fotos da atividade
>
Veja repercussão da atividade em toda mídia
>
Veja Carta enviada ao Governador (1)
>
Veja Carta enviada ao Governador (2)
>
Veja Cartaz de convocação do ATO
|