Por Adriano Sousa, Bianca Santana, Carlos Pinheiro e Kelly Cristina Quintiliano
Comissão Geral da Uneafro

Ao longo dos séculos XIX e XX, foram poucos dos nossos que chegaram ao ensino superior ou acessaram os saberes de poder desse nível de formação. A começar por Luiz Gama, libertador dos escravizados que fez a Faculdade de Direito do Largo São Francisco assistindo as aulas pela janela, proibido de se matricular e frequentar o curso ao lado da elite branca. André Rebouças e Teodoro Sampaio, pioneiros da engenharia paulistana, o segundo um dos fundadores da Escola Politécnica da USP. Hoje, são nomes de ruas em bairros “nobres” da cidade, mas cujas memórias são sistematicamente apagadas pelo racismo.

Aos poucos, chegaram nossas doutoras e doutores, isolados e exceção à regra, colocados na camisa de força, acusados de dividirem a sociedade quando, ao longo dos anos de 1970 e 1980, estudaram nossa ancestralidade, as violências que sofremos desde a captura nos territórios africanos e transporte forçado ao país no período escravista, até o abandono à própria sorte após a falsa abolição.

Gritavam por reparação histórica Abdias Nascimento, Clovis Moura, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez. Gritavam e ainda gritam depois Cida Bento, Milton Barbosa, Rafael Pinto, Sueli Carneiro. Fortalecem nosso exército da luta de bases, nos cursinhos populares do movimento negro: Steve Biko, Núcleo de Consciência Negra na USP, PVNC e depois Educafro e Uneafro. Uma luta pelo direito à vida e à dignidade, contra o racismo, que sabemos só ter consequência se deixarmos de ser braços e pernas da branquitude racista e colonial, para pensarmos outra sociedade, acessando os espaços de poder e os transformando a nosso favor.

Aos poucos, fomos conquistando as cotas, obtendo o reconhecimento constitucional desse direito pelo STF em 2012. Somos aproximadamente metade dos alunos de graduação nas universidades federais. O processo de reserva de vagas está em implementação nas estaduais paulistas, USP, UNESP e UNICAMP. Neste caminho, chegaríamos massivamente à Pós- Graduação. Chegando, questionamos métodos, temas e visões eurocêntricas de mundo na história, na educação, na sociologia, nas biológicas, exatas e no direito.

Hoje, temos uma Associação Nacional de Pesquisadores Negros. Nosso exército aumentou: são muitas e muitos como Allan da Rosa, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Regina Lucia, Cidinha da Silva e Bianca Santana, Renata Souza, Aurea Carolina e Anielle e Marielle Franco (PRESENTE!). Eles e elas estão abalando partidos políticos, igrejas, postos de saúde, salas de reuniões pedagógicas nas quebradas, organizando cursinhos populares, intervenções culturais e salvando as vidas muitas e muitos jovens de quebrada. São pretas e pobres como nós, que vivem enredados na espiral de falta de perspectiva que o racismo estrutural brasileiro nos colocou. Mas ainda somos poucos, perto dos que morrem diariamente, perto dos que vivem a miséria ou o subemprego.

O congelamento de verbas nas federais promovido pela elite ultraescravista travestida de ultraliberal, mais a ameaça de cortes no pagamento de bolsas de mestrado e doutorado do CNPq, a partir do mês que vem, são um retrato do medo da elite de que tomemos o poder. Sabem que trabalhamos, além de estudar, que poucos acessam bolsas. E, ainda assim, para os que têm acesso a elas são o pão de cada dia e sem elas, a chance de desistir aumenta. Sabem que, se não houver oferta de bolsas no futuro, poucos de nós poderão trilhar o caminho da ciência. Querem colocar os poucos que escaparam do cativeiro de volta a ele, pois sabem que estamos abolindo de fato a escravidão, lentamente, só agora.
Esses cortes, fruto de uma política de cortes nos investimentos públicos prevista para durar 20 anos, fazem parte da intenção dos donos do poder de destruir nosso direito à educação, saúde e nos manter, negras, negros, classe trabalhadora como  mão-de-obra descartável, de acordo com seus interesses.

Mas não permitiremos! Lutaremos por mais acesso das nossas e nossos ao conhecimento e à vida! Contra o congelamento de verbas nas federais! Contra os cortes racistas no CNPq e CAPES! Por um orçamento que contemple nosso acesso ao conhecimento!

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