Em ato na Faculdade de Medicina da USP coletivos denunciam perfil racista e eugenista da instituição; e dão um recado: “vai ter preto e preta na universidade sim!”

13/08/2016

Por Simone Freire,

Da Uneafro

A Universidade de São Paulo (USP) é uma das últimas grandes universidades públicas que não tem sistemas de cotas. Enquanto a discussão de políticas como esta – que buscam reparação histórica das consequências do período escravocrata brasileiro – não avança, a presença de negros e negras na instituição continua sendo negada.

Em 2015, nos dez cursos mais concorridos, apenas 3,5% dos alunos se autodeclararam negros. Em sua particularidade, em 2015, dos 300 alunos matriculados na Faculdade de Medicina da instituição (FMUSP); 234 eram brancos, 30 pardos, 32 amarelos, e apenas 4 estudantes eram negros. Nenhum indígena foi matriculado em nenhum dos cursos neste ano.

Para chamar a atenção para esta disparidade, a FMUSP, localizada no centro de São Paulo (SP), teve uma de suas noites mais pretas, nesta quarta-feira (10), quando, por volta de 19 horas, cerca de 100 pessoas se reuniram para dar um recado: vai ter cotas para negros e negras na universidade sim!

A mobilização foi organizada pelo Coletivo Negrex, que reúne estudantes de Medicina, e contou com a presença de militantes da Uneafro, Educafro, Movimento dos Sem Universidades, Núcleo de Consciência Negra da USP e do Coletivo Por que a USP não tem cotas?.

Durante o ato, um manifesto foi lido por todos os participantes. No documento, eles denunciaram que a Universidade de São Paulo permanece “cercada por muros que excluem negros, indígenas e estudantes de baixa renda e os mantêm distantes da educação superior”.

“A USP não tem cotas porque quer manter pobres, negros e indígenas como trabalhadores precarizados, sem teto e sem universidade. Prefere tentar manter nosso povo nas senzalas modernas, que hoje recebem o nome de favelas. A FMUSP não tem cotas porque prefere ver-nos mortos, alimentando as estatísticas de que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Como faz desde os tempos do Dr. Arnaldo. A USP não tem cotas porque se a Casa Grande já surta quando a Senzala aprende a ler, imagine quando vira médica”, diz trecho do manifesto lido.

“Nós tivemos um regime escravocrata no Brasil. Quando terminou e houve a abolição, não houve respaldo do Estado para a inserção do negro. Pelo contrário, sofremos as sequelas até os dias de hoje. Basta entrarmos nos fóruns e olharmos para os nossos magistrados. Basta irmos a hospitais. Nosso imaginário, a relação que temos com espaços de poder, é majoritariamente branco. As ações afirmativas tem o intuito de fazer essa reparação histórica, para determinado grupo que foi prejudicado. Isso é latente e emergencial. Fere os privilégios dos brancos, por isso causa tanto furor”, diz Rosangela Martins, da coordenação nacional da Uneafro.

No ato, os manifestante também lembraram a trajetória racista da instituição representada na figura de Arnaldo Vieira de Carvalho, fundador da faculdade, e entoaram vaias ao lado do busto localizado em frente a um dos prédios centrais.

“A tradição de se intitular “filhos de Arnaldo” ainda é forte entre estudantes de medicina da USP, os quais tomam como exemplo esse médico eugenista, que pregava a superioridade ariana, uma pseudociência que sustentou o Holocausto na Europa e implantou na saúde pública brasileira práticas de controle da população

[…]. A Faculdade de Medicina de São Paulo já nasceu em berço eugenista, racista, elitista, machista, LGBTTfóbico. Isto não mudou muito desde sua fundação”, leram.

O ato, que durou cerca de 40 minutos, também mostrou a necessidade de se seguir na luta pela inclusão e direitos historicamente negados para que, em um futuro próximo, noites pretas como a desta quarta-feira não sejam um diferencial, mas uma rotina diária dentro da FMUSP.

“É só unidos que a gente vai conseguir destruir estes muros que impedem a gente de entrar na universidade. É só unidos que a gente vai conseguir garantir que a cotas dentro da USP deixem de ser só um discurso e se tornem de fato uma realidade”, disse Suzane da Silva, integrante do Coletivo Negrex e estudante de Medicina.

Confira o manifesto completo:

No ano de 2012, a luta pelo direito à educação superior conquistou a aprovação da Lei 12.711, a Lei de Cotas, por unanimidade, no Supremo Tribunal Federal. Atualmente, todas as universidades federais brasileiras já possuem uma política de cotas e a partir de 29 de agosto deste ano deverão reservar “em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas”, conforme determina a lei. Esta reserva de vagas será feita respeitando-se a proporção de pretos, pardos e indígenas na unidade da Federação onde está instalada a instituição. Além disso, no mínimo metade das vagas às quais se refere a lei serão reservadas para estudantes cuja renda per capta seja igual ou inferior a um salário mínimo e meio.

Dentre as 36 universidades estaduais do país, pelo menos 30 reservam vagas como parte de uma política de inclusão social. São Paulo é o estado que acolhe a maior população negra do país, com cerca de 14,5 milhões (representando 34,6% da população de 42 milhões de paulistas).

Mas a Universidade de São Paulo permanece cercada por muros que excluem negros, indígenas e estudantes de baixa renda e os mantêm distantes da educação superior. No ano de 2014 apenas 0,12% de indígenas e 8,4% de negros ingressaram na USP. Em 2015, esta universidade destinou uma porcentagem de vagas ao SISU. E essa política vem se mostrando catastrófica. Apenas 3,5% dos ingressantes no ano de 2015 eram negros, e 0,6% eram indígenas. No vestibular 2016, das 11.057 vagas da USP, somente 1.489 (13,5%) foram destinadas ao SISU. Destas vagas, 814 foram preenchidas, sendo que só 21 (1,41%) foram preenchidas por estudantes negros e indígenas. As 675 vagas remanescentes voltaram para a FUVEST. E, do total de vagas do vestibular da FUVEST de 2016, somente 1.427 (14%) de ingressantes são pardos, 328 (3,2%) são pretos e 19 (0,2%) são indígenas.

A Faculdade de Medicina de São Paulo segue sem nenhuma política de inclusão. No ano de 2016, dos 298 ingressantes no curso de medicina da USP, 238 (79,9%) são brancos, 2 (0,7%) são pretos, 22 (7,4%) são pardos, e nenhum estudante é indígena. É importante ressaltar que o número de ingressantes pretos no curso de medicina da USP caiu pela metade, passando de 4 (1,3%) em 2015 para 2 (0,7%) em 2016. E o número de estudantes pardos passou de 32 (10,7%) em 2015 para 22 (7,4%) em 2016. Esses números demonstram o quão excludente é a Faculdade de Medicina de São Paulo.

Tais dados refletem a proposta racista e elitista de Arnaldo Vieira de Carvalho, fundador da Faculdade de Medicina de São Paulo e também da Sociedade Eugênica de São Paulo (Sesp). A tradição de se intitular “filhos de Arnaldo” ainda é forte entre estudantes de medicina da USP, os quais tomam como exemplo esse médico eugenista, que pregava a superioridade ariana, uma pseudociência que sustentou o Holocausto na Europa e implantou na saúde pública brasileira práticas de controle da população, em especial de mulheres, negros, pobres, prostitutas, homossexuais, crianças e pessoas com diferença funcional (ainda frequentemente denominadas, inclusive em textos oficiais, pejorativamente como “pessoas com deficiência”). A Faculdade de Medicina de São Paulo já nasceu em berço eugenista, racista, elitista, machista, LGBTTfóbico. Isto não mudou muito desde sua fundação.

Prova disso é que a atual direção da Faculdade de Medicina da USP tornou-se destaque internacional por acobertar estudantes estupradores, todos brancos e ricos, enquanto pedia hombridade e honestidade às vítimas. Esta Faculdade de Medicina da USP também se posiciona enfaticamente contra as cotas, não se propõe a formar profissionais éticos e humanizados, e não defende o Sistema Único de Saúde. Sequer inclui em seu currículo a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, nem a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e das Florestas. Afinal, que tipo de médico a USP está formando?

Apesar de todas essas questões, a Faculdade de Medicina da USP ostenta o título de pertencer a uma “classe internacional por suas pesquisas”. A direção dessa faculdade afirma que a política de cotas terá impacto negativo na qualidade dos alunos. Mas não existe absolutamente nada de científico nessa afirmação. Ao contrário do que a direção da Faculdade de Medicina de São Paulo supõe, estudos realizados em universidades que adotam cotas, como a UERJ, a UFRJ e a UFBA demonstram que o desempenho de estudantes cotistas é igual ao de não cotistas. Então a pergunta que não quer calar é: por que a USP não tem cotas?

Nós, do Coletivo Negrex, em conjunto com a Educafro, a Uneafro, o Movimento dos Sem Universidade (MSU), o Coletivo Por que a USP não tem Cotas?, o Núcleo de Consciência Negra da USP e com o apoio de estudantes da USP e de cursinhos populares estamos aqui para tentar responder essa pergunta. A USP não tem cotas porque quer manter pobres, negros e indígenas como trabalhadores precarizados, sem teto e sem universidade. Prefere tentar manter nosso povo nas senzalas modernas, que hoje recebem o nome de favelas. A FMUSP não tem cotas porque prefere ver-nos mortos, alimentando as estatísticas de que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Como faz desde os tempos do Dr. Arnaldo. A USP não tem cotas porque se a Casa Grande já surta quando a Senzala aprende a ler, imagine quando vira médica.

Algumas fontes utilizadas:

https://www.facebook.com/cotasusp/photos/pb.1693804390882466.-2207520000.1467917618./1704985079764397/?type=3&theater

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-06/cai-numero-de-pretos-e-pardos-aceitos-pelo-vestibular-da-usp-em-2016

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2006000100028

http://www.fsp.usp.br/site/dcms/fck/cotas.pdf

http://spressosp.com.br/2014/11/27/diretor-da-usp-pede-hombridade-mulheres-estupradas-na-universidade/